Procura-se amor, ou ‘coisa’ que o valha, nos trópicos

Cada ser procura o seu próprio paraíso! “Liebe” (“Amor”), “Glaube” (“Fé”) e “Hoffnung” (“Esperança”) compõem a trilogia “Paradies” (“Paraíso”), uma obra-padrão da filmografia de Ulrich Seidl, marcada pela sua visão corrosiva e sem concessões sobre uma sociedade ocidental hipócrita e dicotómica. Apresentada individualmente nos Festivais de Cinema de Cannes, Veneza e Berlim, esta trilogia pode ser vista separadamente, mas há uma linha condutora que une as histórias: o parentesco entre as protagonistas e o desconforto inescapável que desafia o público.
“Paradies: Liebe”, o primeiro capítulo, apresenta-nos Teresa (Margarete Tiesel), uma mulher cinquentona vienense que embarca numa viagem ao Quénia salivando por turismo sexual. À chegada ao paraíso tropical, Teresa ilude-se nos seus próprios propósitos, tentando encontrar não apenas prazer, mas também o amor puro e sincero que sempre idealizou. Contudo, procura-o nos locais errados, entre homens que se tornam tanto instrumentos de fantasia como representações cruas de um sistema onde o afeto se transforma em negócio. Teresa, no entanto, é incapaz de amar ou ser amada – uma figura simultaneamente trágica e irónica no universo impiedoso de Seidl.
O cineasta desvela o amor enquanto transação, expondo corpos e emoções com uma frontalidade rara. Não enriquece as suas personagens nem as desenvolve: limita-se a esquematizá-las, quase como peças de um estudo antropológico. Esse distanciamento ameniza, de certo modo, o choque das cenas mais provocadoras e obscenas, mas reforça a natureza crua e realista da abordagem. A narrativa surge como uma colisão entre o documental e o ficcional, ambas as vertentes detidas por humor negro e um observacionalismo sem lapsos de Seidl, um guia turístico desconfortável quanto implacável, ignorando qualquer necessidade de cativar ou agradar ao espectador - não é obrigado a ficar, a “porta” é serventia da casa.
“Liebe” não é uma obra de fácil digestão. É brutal e irónica, desafia tabus e preconceitos, e coloca o público diante de um espelho desconcertante sobre o que separa Mundos, do primeiro a terceiro, a procura e a oferta, a fantasia e a cedência, com ecos de neocolonialismo. A busca de Teresa pelo amor nos trópicos, como quem procura o Santo Graal, não é apenas uma jornada pessoal, opera numa metáfora amarga sobre os desejos reprimidos e as hipocrisias (Seidl é o cineasta dos hipócritas, sem dúvida alguma) de um mundo cujas emoções mais humanas são as mais solicitadas mercadoria. Iguarias, portanto.

