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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Por entre os sonhos húmidos do sovietismo

Hugo Gomes, 26.01.17

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Num determinado momento de “O Divã de Estaline” (“Le divan de Staline”), uma fotografia do verdadeiro líder soviético é gradualmente sobreposta por uma imagem da personagem homónima encarnada por Gérard Depardieu. Não existem muitas semelhanças entre os dois (o real e o da ficção), mas somente a vontade de recriar e trabalhar a História, tirá-lo do seu estatuto imaculável e intocável, e fazer o Cinema exercer-se como um poço de criatividade em vias de exploração.

O homónimo livro de Jean-Daniel Baltassat (uma perspectiva freudiana a uma das figuras incontornáveis da nossa História) é transportada para o grande ecrã pelas mãos de Fanny Ardant, a emblemática atriz que teima em deixar a sua marca como realizadora. A sua terceira longa-metragem vem inicialmente evitar os “becos sem saída” e o pedantismo “farsolas” de Cadências Obstinadas. Onde antes havia vazio emocional, agora há um outro sob o desejo de ser preenchido, como uma tela aguardando pelas suas cores. É nesse aspecto que o filme vem ganhando a sua devida forma. Assume-se então uma representação de um pedaço de História vencida, onde o teor psicológico aventura-se acima da veracidade dos factos.

Há um regresso à ritualidade de “Cinzas e Sangue” (“Cendres et Sang”), aquele fascínio pela plasticidade do organismo fílmico e a aspiração pela arma mais potente do teatro: a sua recorrente imaginação, aquele “faz-de-conta” na recriação. Talvez seja por isso que Depardieu funciona simbióticamente como uma alternativa staliniana, mais do que as vestes camaleônicas que um qualquer biopic de Hollywood tentaria culminar.

Neste universo, o ator é o perfeito Estaline, numa versão que anseia respirar a breve emancipação. Um homem frio, calculista, inteiramente regido às ideologias criadas por ele próprio e estabelecidas no seu regime, um reinado com tamanho medo. O líder soviético espera aqui o seu momento de fragilidade, a desmistificação dos métodos de Sigmund Freud – a psicanálise – que o próprio considera charlatanices igualmente competentes que “roubam segredos a burgueses ricos” do outro lado da Europa. As sessões improvisadas, ensinadas no momento, servem de catarse para a desconstrução dessa mesma personalidade.

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Em contracampo, surge Emmanuelle Seigner como Lídia, a referida improvisada “psicanalista”, a mulher “privilegiada” no seio afetuoso de Estaline, encarada como uma “ponte quebradiça” entre a emocionalidade resgatada do seu líder. As duas figuras constituem dois vértices de um triângulo formado por ódio / amor / medo, completado pelo pintor Danilov (Paul Hamy), um artista reprimido por uma expirada inspiração. Mas este triângulo é isósceles, dois lados servem como “sessões” de teor psicanalista a uma só figura, e a esta altura o leitor já se apercebeu qual sai beneficiada neste registo.

Mesmo que a psicologia não esteja no ponto (uma ciência não exata neste filme) é indiscutível o passo em frente que Fanny Ardant dá na sua carreira de direção. “O Divã de Estaline” é, até à data, a sua obra mais completa, concisa e sobretudo, cinematográfica. Acreditando que o Cinema é uma arte de criação desprovida de rédeas, eis a minha saudação a Madame Ardant!