Pixar em queda? Elementar, meu caro ...

Mais um tubo de ensaio distópico (desejosos em ser utópicas) resultando numa nova longa-metragem da Pixar, e novamente demonstrando o seu habitual e irrepreensível rigor visual, só que desta vez, contamos com um engajado aviso à comunidade - o estúdio está a enfrentar uma crise identitária que condiz com a sua escassez criativa. Está lá, etiquetado para “todos verem”.
Basta ler em entrelinhas, e entender o nervosismo habitado neste “Elemental” (de Peter Sohn, assinante de um dos contos subvalorizados da produtora, “The Good Dinosaur”), história de ancestralidades e inclusão num fantasioso mundo onde os seus habitantes são, nada mais, nada menos, que seres elementares (e antropomórficos, é claro!); Água, Ar, Terra e os indesejados Fogo, oriundos do remoto e do exótico. E é numa metrópole que todos esses elementos se coexistem, mas não se misturam, remetendo os infames Fogo para guetos fora do centro da cidade. Quem conhece a realidade suburbana e as políticas de gentrificação hipocritamente disfarçadas de cosmopoliticidade irá reconhecer o flagelo que estes seres luminosos e ardentes são reduzidos, isto em contraste com os privilegiados Água ou os nobres e aristocratas Ar. Isto, dando uma ideia de classe social com uma condição de migrante enguiçado nas “ventas”, só que a temática (apesar das queixas de muitos colegas que “jogam à direita” e mais além) não seja o principal fio condutor de “Elemental”, antes disso o escape para romances shakespearianos e a pitada de conexões familiares do costume.
Depois de lido a advertência, ou será melhor, pedido de socorro, concluímos o óbvio, a Pixar precisa urgentemente de inovar a sua “arquitetura”, ou começar a debater outras estâncias para além das vencidas e comumente formuladas no mercado disnesco. Está lá tudo em termos gráficos, só que lhe falta a chama no restante!