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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Petra Costa: na vertigem do trauma e da sensibilidade do Brasil

Hugo Gomes, 01.05.20

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Devido aos novos tempos gerados por esta pandemia, muitos dos festivais de cinema optaram pelas edições onlines como alternativa ao cancelamento, uma subsistência que já soa a uma eventual realidade futura. Visions du Réel, na Suíça, foi um deles, disponibilizando a sua seleção de documentários e produções experimentais ao alcance de todos. Uma das experiências obtidas dessa mostra virtual foi à sua maneira bastante física, o “reencontro” com a cineasta brasileira Petra Costa.

Falo de reencontro, porque o meu primeiro contacto com ela (excluindo a grande descoberta com Elena no FESTin) aconteceu durante o Indielisboa de 2016 na apresentação da sua obra “a meias” - O Olmo e a Gaivota – com a dinamarquesa Lea Glob [a entrevista poderá ser lida aqui]. De Olmo’ a 2020, Petra conseguiu um dos seus grandes feitos de carreira, um documentário que expunha a fragilidade de uma democracia sob ameaças diversas, sob o selo da NetflixDemocracia em Vertigem – que conquistou a proeza de nomeação ao Oscar. Nesse sentido, a realizadora adquiriu uma fama global que a automaticamente levou a um estatuto próprio de autoralidade, essa, aproveitada pela recente edição do Visions du Réel que a homenageia com uma retrospetiva integral e o direito de coordenar um atelier. Infelizmente, tendo em conta essa “normalidade” COVID-19, não pude estar presente no decorrer do festival, mas tal não impediu de conversar com Petra Costa sobre este momento na sua carreira.

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A entrevista, dividida por um ecrã, tocou-se nos assuntos principais da filmografia da cineasta; o trauma, a intimidade, a política e o coronavírus como oportunidade.

Os filmes, por um lado, também são tentativas de elaborar traumas; o suicídio de Elena [irmã de Petra Costa] e a sensação de estar a repetir os passos dela (que é próprio do trauma), e no Olmo e a Gaivota é o desafio de morrer para dar a vida ao outro (um trauma muito pouco explorado, as pessoas tentam desmistificar e apagar tudo o que é escuro do processo de gravidez, duma forma bem machista) e no Democracia em Vertigem é evidentemente o trauma político, o de ter a democracia como um dos poucos alicerces certos do qual me poderia posar na sociedade brasileira, ser rapidamente destruídos.” Ler entrevista completa aqui.

Porém, até à data, e não menosprezando o que fora produzido até então, Petra Costa há muito havia atingindo o seu mais enorme feito, um dos filmes mais sensíveis e belos concebidos na última década – Elena [ler crítica]. Fico com a sensação que o fantasma de Elena Costa irá assombrar a sua aura artística.

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