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1.11.17

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Por mares nunca antes navegados …

 

A grande epopeia literária portuguesa, capaz de sombrear o então digno do título Os Lusíadas do nosso Luís Vaz de Camões. Mas as infelicidades ditaram a obra, ou será antes Obra, e a reduziram-na ao elenco secundário, porém, a sua magnitude e valor histórico colocam-no num patamar que a imaginação do célebre poeta nunca atingira, aliás, porque não pensar que nestas páginas reside um pouco de fantasia com os relatos viventes de um explorador, e quiçá, corsário na sua negritude forma. Contudo, tal como o seu “rival” Os Lusíadas, Peregrinação é uma obra literária infilmável, devedora de uma imaginação e síntese descritivo em tempos em que o Cinema nem sequer residia nos sonhos mais longínquos. Nesse aspecto, João Botelho, tão fascinado pelo património cultural e artístico português tende a dar um “passo maior que a perna”. 

 

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Nem mesmo os ensinamentos de Manoel de Oliveira, pelo qual se rege religiosamente, o conseguem salvar. “Se não há recursos para filmar a carroça, filma a roda, mas a filma-a bem”. Sob esse signo, Botelho tenta retratar esta expedição para o Oriente para além de Marco Polo, a miopia que tende em adereçar à imaginação do espectador, o “faz-de-conta” que se apodera deste face à limitada envergadura dos cenários e do exotismo por vezes conotado como postais turísticos. A miopia planificada, algo que poderíamos desculpar de forma a desafiar o nosso intelecto, é um fruto “podre” perante as verdadeiras intenções do realizador: trazer à luz esta importante peça da nossa História, renegada nas escolas, e da cultura geral nacional.

 

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Fernão Mendes Pinto foi assim esse explorador do infinito, designação que se atribuía ao desconhecido; um navegador infortunado, em  busca das riquezas profundas, mas nunca a glória eterna. Os seus azares levaram-no ao encontro de regiões exóticas, povos enraizados em culturas distintas, um mar de possibilidades que no cinema de Botelho transforma-se em meras ocasionalidades. Felizmente, o retrato de época, o colonialismo que vem surgindo, é visto com a ambiguidade que merece - nesse aspecto eis um exemplo concreto: existe uma dicotomia envolvente na figura de Mendes Pinto, como um objecto quixotesco, oscilando entre o “bom navegador” ou o pirata sedento pela sua cruzada (excelente escolha este Cláudio da Silva). Segundo Botelho, foi tomada a liberdade de apropriar a ideia de Aquilino Ribeiro nessa transposição. Um desafio subliminar ao ensino dado na educação portuguesa, a cada vez mais rara imagem do “bom colonizador”.

 

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Contudo, longe do “bom colonizador”, existe neste filme de Botelho o “bem intencionado”, a polivalência cinematográfica, algures entre o teatral ou o fulgor épico nunca adquirido no nosso panorama audiovisual, transformam a Peregrinação numa viagem de sabores. Um “cata-vento” de diversas facetas que resultam em máscaras no tratamento do “monstro” gerado por um “rato”. No sentido artesanal, ou como se diria em “bom” português, na vaga do “desenrasque”, Peregrinação resultará num futuro próximo numa espécie de case study, o épico fora dos tempos salazaristas e o território próprio do cinema de Oliveira, sem nunca abandonar totalmente o risco que raramente se toma na nossa indústria. Por outras palavras, a Botelho é lhe merecido a vénia da irreverência, sendo que o ato valerá mais que o gesto em si.   

 

Real.: João Botelho / Int.: Cláudio da Silva, Jani Zhao, Catarina Wallenstein, Marcello Urgeghe

 

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5/10

publicado por Hugo Gomes às 10:10
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1 comentário:
De Deana Barroqueiro a 30 de Abril de 2018 às 17:28
É já de domínio público que João Botelho adaptou, sem a devida permissão da autora e da editora Leya, no seu filme Peregrinação, uma parte do romance de Deana Barroqueiro, "O Corsário dos Sete Mares", com a agravante de referir nos "media" as inúmeras cenas deste livro, como se fossem da obra de Fernão Mendes Pinto. Botelho admitiu o plágio num e-mail da Ar de Filmes para a editora, porém, continua publicamente a insistir no logro, não dando créditos à autora da obra que lhe serviu de guião. Assim, o filme não pode servir de introdução à obra de Fernão Mendes Pinto, como proclama o cineasta,, porque grande parte das cenas não existem na obra renascentista, mas tão só no meu romance.
Ao cotejar o filme de João Botelho com a "Peregrinação" de Fernão Mendes Pinto e com “O Corsário dos Sete Mares”, verificamos que:
1. As cenas do filme que não constam do meu livro são as da morte de Pinto e as da mulher e filhos, tal como a cena das “mantas” voadoras”.
2. As restantes cenas e personagens femininas do filme, exceptuando a rainha da Etiópia, não existem na “Peregrinação” de FMP, são do meu romance, inventadas por mim ou ficcionadas a partir de sugestões do original ou fruto da pesquisa que fiz em documentos portugueses e do Oriente.
3. Não existe nenhuma violação, por António de Faria, na “Peregrinação”, como Botelho afirma que há, numa das suas entrevistas. A violação está no meu romance, embora praticada por Pinto – refere-se ao cap. 47 da sua obra, o episódio da «noiva roubada», que é levada com os irmãos meninos para ser vendida ou resgatada por dinheiro, como era costume. Como o seu destino ficava em aberto eu parti deste episódio para ficcionar uns supostos amores de Pinto que acaba por a violar, algum tempo depois, no barco. Botelho seguiu o “guião” do meu livro, embora com alterações.
4. A personagem da amante chinesa, assim como o seu nome Meng e os seus amores, inventei-os a partir da menção feita no livro de Pinto (cap. 116) aos filhos do português Vasco Calvo - «dois meninos e duas moças”. A cena do filme, em que «Meng», com uma bacia de água perfumada com pétalas de flores, a lavar as cicatrizes das chicotadas que Pinto tem nas costas, é um dos episódios do meu romance que considero melhor conseguidos (a sua foto tem sido reproduzida na maioria dos jornais). A única diferença é que João Botelho coloca a cena em Pequim e não na aldeia junto à muralha da China, onde vivem os condenados a trabalhos forçados.
5. Em Pequim, as cenas da moça que toca, canta e convive com Pinto, ensinando-o a ler mandarim. Nada disto existe na Peregrinação, inventei esta personagem e estas cens, incluindo poemas e canções chinesas, de que fiz a tradução, criando de raiz a personagem filha do «monteo» (o capitão chinês que vai levar Pinto e os companheiros para a Muralha). Na obra de Pinto há apenas uma referência à “mulher do monteo”.
6. As cenas das prostituas também não existem na Peregrinação, inventei-as para criar episódios cómicos com Pinto e Cristóvão Borralho. A fala da prostituta sobre a influência do Yin e Yang no sexo, a menção ao Mercado dos Cavalos Magros são do meu romance.
7. Na obra de FMP, nos episódios do Japão, não existe qualquer referência ao suposto casamento de Fernão ou de Zeimoto, nem a Wakasa, que eu encontrei em outras fontes japonesas, depois de grande pesquisa. Ficcionei a história desse casamento, com a ida da personagem ao barco, fazendo dela uma espécie de Madame Butterfly avant la lettre.
8. No filme, Fernão narra a sua 1ª viagem, ainda adolescente, quando servia em casa de uma senhora e teve de fugir para salvar a vida. Apenas isto. Os amores adúlteros e o assassínio de Dona Joana Aires da Silva e de Manuel Freire, o amante, são do meu romance, cuja fonte foram arquivos sobre um escândalo da época. Botelho leva este episódio para o seu filme, embora fazendo de Pinto um segundo amante, a quem a senhora pede que leve um recado … ao amante Manuel Freire.
9. O realizador absorveu ainda outras ideias da minha obra expondo-as como suas: numa entrevista, refere-se à magia do 9, que é um leitmotiv do meu romance.
10. Há mais casos que só se detectam comparando os dois livros, como a sequência dos episódios ou juntar as duas viagens a Sumatra num só episódio.
Entreguei o caso aos advogados.
Deana Barroqueiro


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