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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Pedala Petzold, pedala ...

Hugo Gomes, 30.12.25

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Uma mulher e uma bicicleta, seja Nina Hoss, seja Paula Beer, as musas representativas do seu trajecto artístico, Christian Petzold faz cinema a partir dessa imagem minimalista, por vezes invocativa de um certo bucolismo. “Mirrors No. 3” responde, sem surpresas, a essa imagética, é uma obra que, fazendo ouvidos moucos ao que entendemos por realismo, se assume e se abraça na sua austeridade funcional: não apenas narrativo, mas também cénico. Um cinema despojado, a pedalar na sua própria lógica.

Em tempos (não há muito), Petzold, sob o signo da sua Beer, olhava para sirenas fluviais como quem observa constelações, imaginando e consciencializando que essa luz é gerada por matéria morta, uma iluminação projectada através de milhares de anos-luz. Pois bem: a fantasia no cinema petzoldiano tem esse chamamento ao morto, ao desaparecido, evidencia-se nele algo desafiante à crença do espectador, sem artifícios nem artificialidades, à presença de fantasmas e outros seres místicos, sem sequer os invocar pelo nome. É um cinema reduzido na sua graxa, e consequentemente o espectador na sua graça.

Paula Beer é o espectro: um almejar de vidas passadas, cuja actualidade lhe é indiferente, existencialmente indiferente. Com isto vai “assombrar” uma mulher rural, cujo segredo reforça o seu voluntário cativeiro. Depois, a música surge como esse chamamento, uma memória auditiva voraz e um piano há muito não tocado, cujo teclar aqui e ali abre certas portas imaginárias, invisíveis ao olhar, mas pode se sentir na devoção do enredo; o clássico melódico é apenas ultrapassado por Frankie Valli and the Four Seasons (“The Night, para sermos exactos), enchendo de curiosidade a protagonista invasiva, curiosidade que pouco a pouco se dilui naquele ambiente de clausura.

Como em muitos filmes de Petzold, sobretudo desta fase Beer, somos tentados a pairar no mundo retratado. Não é passividade: é quase uma agressividade amestrada, em oposição à faceta Nina Hoss, onde o choque, o confronto, revelava um realizador com vitalidade e irrequietude para atentar na História e nas estórias, no género, mas também no segredo. Em “Mirrors No. 3”, resta a reviravolta como ligação a esse estanque.

Há quem o considere uma obra menor. Talvez. A produtividade de Petzold poderá estar a conduzi-lo a algum cansaço, e a personagem de Beer não é, de facto, das mais empáticas para sustentar o trajecto. Ainda assim, permanece um pequeno prazer cinéfilo: esse miminho oriundo da Escola de Berlim.