Os Deuses pagam impostos aos Pássaros

Cinema lírico, e de aproveitamento lírico, pegando em ficções destiladas como a obra de Mia Couto (“A Morte, o Tempo e o Velho”) ou a peça de Aristófanes (“As Aves”), resultando num cocktail alegórico que redesenha aquelas moralidades, ou extensões filosóficas, oriundas de gregos e troianos.
A mistura é clara: o Verbo e a teatralidade desse mesmo Verbo colam-se nas suas dobras, fala-se de deuses e pássaros, como também de peixes disfarçados de traiçoeiros, e de uma cidade vista do além, a qual um velho isolado e a sua caturra invejam. Não a alcança, não por falta de vontade, nem sequer de tentativa, mas porque algo o impede de chegar à metrópole. Uma repetição, apenas intercalada com a visita de duas figuras: uma criança e um incógnito (a Morte talvez?). Entre as promessas da surrealidade ou a distopia apocalíptica, “As Aves” é um ensaio desses factores em prol de uma ideia de existencialismo trocista, prolongando a sua direcção num esquema conceptual que cede à própria temporalidade. Nós, enquanto espectadores, apercebemo-nos do feito cedo demais, digamos, e ficamos reféns desse Tempo, dessa performance perante o tempo, até percebermos que não saímos dali: como o filme, como o velhote, ou como a ave que tem por estimação.
O Ícaro sem engenho, a Morte sem personalidade bergmaniana, é uma alegoria frágil, compreendida nem que seja apenas por via da interpretação. Pedro Magano detona ambição, ou a intenção de ser-se artístico, percebe-se, mas não sabemos se estaremos com ele em toda a viagem.







