O vaivém a Pandora ... mais um!

“São voltas e voltas sem parar
Em sonhos nocturnos
Em sonhos de encantar
Muitos enredos histórias reais
Que envolvem mas acordam sem avisar.”
Refrão de “Voltas”, música da banda Entre Aspas
São voltas, meu senhor. Até porque, à terceira entrada em Pandora (esse mundo imaginário de raiz por James Cameron) começamos e terminamos no mesmo sítio, narrativamente falando (e em 3 horas disso!). É uma volta circunferente na qual nos envolvemos, subjugados pela tecnologia visual colocada diante do nosso nariz. Se é verdade que “Avatar: Fire and Ash”, em pé de igualdade com os capítulos anteriores, nos obriga ao aplauso pelo labor tecnológico e pela condução deste universo (os melhores efeitos especiais da actualidade, de longe, capazes de nos fazer acreditar naquelas criaturas Na’vi como algo verdadeiramente humanizado), também é verdade que, acampados aqui, nos sentimos incomodados pelo fascínio quase sobrenatural de Cameron pela sua Pandora.
No “chop chop” desse deslumbramento surge a questão: não serão, a esta altura, os “Avatar” apenas um capricho quase infantilizado e escapista do realizador? Ao terceiro tomo, o espanto do espectador já não é o mesmo, cedendo a um cansaço da retina, ainda a desintoxicar dos uncanny valleys e das IAs geradoras de imagens que inundam a nossa esfera mediática. Prezado … ou inequívoco tempo … em que surges para salivar o espectáculo com a griffe do mundano tecnológico, falta-lhe sobretudo fisicalidade, ou algo mais transgressivo do que as mistelas narrativas que se desenrolam sem qualquer ponto de fuga, a não ser a abertura para mais continuações (esperemos que Cameron faça uma pausa e se despache para outros projectos, de diferente natureza).
Contudo, onde falha, e talvez aí resida o ‘calcanhar de Aquiles’ de Cameron, é na forma como condensa histórias originais ou oleia narrativas. Em “Avatar 3”, a ‘coisa’ faz-se de protagonistas passivos, com escasso impacto na progressão do relato, já que o vilão reincidente (Stephen Lang), parece abrir novamente as portas necessárias à lógica avatariana, agora acompanhado por uma nova vilã (Oona Chaplin) que, depois da promessa, é despachada a meio como mero adereço.
E são três horas disto (já tinha dito, não tinha?), confinadas a um terceiro acto de mais uma batalha entre “cowboys e índios”, com um Deus ex machina (aliás, como tudo o que pontua esta Pandora) a resolver bloqueios imaginativos. São voltas e mais voltas, colocando “Avatar” na linha da frente da decisiva existência do cinema em sala. Podemos confiar em James Cameron ou suspeitar de que esta nova volta na montanha-russa é apenas a obsessão de um velho? Como bem sabemos, dessas obsessões já nasceram projectos mais arriscados … e bem mais interessantes.