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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

O Som e a Fúria

Hugo Gomes, 22.01.26

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Migração selectiva: esse salto do eixo dos actores para o outro lado da câmara, talvez não apenas como demonstração de poder na indústria, mas também como procura de legitimação artística e intelectual. Por outro lado, recordando uma conversa com o crítico e programador Ricardo Vieira Lisboa (no âmbito do podcastBola Preta”), existe uma hipótese perversa ligada à chamada ‘Política de Autores’ e à forma como, usando o exemplo das escolas de cinema, muitos alunos forçam desde logo um olhar autoral nas primeiras obras, mesmo sem maturidade para o sustentar, em figuras como Kristen Stewart, o nosso “objecto de estudo”, “The Chronology of Water” pontua precisamente nesses elementos e lugares-comuns dessa visão de autor. 

Inspirado no homónimo romance autobiográfico da escritora Lidia Yuknavitch (editado em 2011), a realizadora (também co-argumentista) constrói uma narrativa estilhaçada de traumas e consequências, trazidas com solidez pela actriz britânica Imogen Poots. No fundo, é quase um exercício de ‘daddy issues’, sendo o complexo paternal aqui mais abusivo do que a pressuposta sensibilidade ocidental e freudiana. O filme ancora-se nesses eventos, nessa culpa assombrosa e numa auto-comiseração que nos acompanha furtivamente ao longo de duas horas. Não lancemos, porém, as rosas antes do tempo: Kristen Stewart emaranha-se num registo hoje abundante: imagens grotescas, frias e cruas, de uma suposta anarquia domesticada, o caos como resposta às preces da sua personagem. Ainda assim, não se conduz de forma plenamente convicta no mise-en-scène. A realidade, ou o seu simulacro, impregna a estética; a realizadora-actriz acaba por ser fruto dessa tendência.

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Kristen Stewart dirige Imogen Poots em "The Chronology of Water"

Contudo, a rosa guardada, acompanhada de um sonoro “BRAVO”, pode agora ser lançada. Apesar do cliché e da entropia banalizada, “The Chronology of Water” revela um olhar corajoso e determinado em fazer frente aos rótulos. É um filme de vários estados: líquido, gasoso, condensado (talvez em excesso); de fluidos e poros, de viscosidades e outros excrementos. É sujo, sim, na explicitação de uma mente perturbada à procura do seu lugar, ainda por emancipar, pois o passado surge como corrente metalizada, vistosa, reluzente, lembrando-nos que somos criações das nossas experiências, umas marcam, outras moldam. Antes de atirar a dita rosa, talvez mais próxima de um “bom trabalho”, de palmadinhas nas costas, do que de um gesto verdadeiramente transgressivo, fica ainda um elogio a Jim Belushi, aqui, enquanto escritor-mentor: sem falinhas vazias, nem mentiras acutilantes, outro trágico a fazer companhia a esta nossa tragédia.

Stewart alcança aqui o seu primeiro filme, diríamos, verdadeiramente SEU. Para lá do exercício físico da câmara, percebe-se um esforço mental. Muitos alunos sonhariam com um projecto inaugural assim; a actriz concretiza-o com muito cuspo. Ainda que o resultado, quando comparado com a roda acelerada do Cinema, perca por redundância e pelas malhas das quais secretamente desejamos libertar-nos. Não é louvável, antes animoso.