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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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O Segredo das Pedras Vivas

Hugo Gomes, 02.12.25

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A memória e a ligação ao artificioso: o cinema português continua a invocar o invisível e a transmitir, em jeito verbal, a tradição, o folclore e todas as reminiscências de um povo milenar. Ao contrário dos movimentos actuais, fomentados num liberalismo ditado pela ignorância e pelo imediatismo, são poucas as cinematografias que se estabelecem como registos culturais da História de um país. Portugal tem esse Cinema, completamente desprezado pela cauda de um ocidentalismo e de uma linguagem globalizada importada em nome da Modernidade.

As Estações”, de Maureen Fazendeiro, é um dos enésimos exemplos de como o cinema português fala (nem que seja em monólogo) sobre a nossa ancestralidade, e, aqui, fugindo a sete pés do etnográfico em voga numa grande porção dos anos 60, 70 e também 80 (com descendentes espalhadas pelo movimento das “coisas”), encontramos uma colectânea de memorabilia, registos orais e arqueologia, embebida no diário de dois arqueólogos alemães que, ao descobrirem um monumento megalítico em propriedade privada, abordam um país à beira de uma mudança de regime (cravo cravado no peito) e, simultaneamente, as lendas e histórias compreendidas nesse cerco.

É um objecto rico dessa humanidade das eras e das reconstituições voluntariamente parolas, que incentivam um certo primitivismo. Fazendeiro mantém equilíbrio no seu documentário e nas representações visualmente alegóricas: de santas a encantadas, de pastores a bandidos, de mitos rurais a fantasmas vigorantes. O lado farsesco parece apontar para os devaneios do cinema de Miguel Gomes, mas é também, e igualmente, uma tradição cinematográfica nossa, a fachada como ponte de comunicação.

Enquanto se debatem os recuerdos do povo, surge à luz um entendimento da propriedade privada, hoje em voga pelas extremidades politizantes que invadem a esfera pública. Aqui, ao lado do metamorfoseado “O Segredo das Pedras Vivas”, de António de Macedo (da televisão, sob o título “O Altar dos Holocaustos”, ao filme final de 2016), a valorização da terra enquanto património privado tem sido, antes de mais, uma ameaça à memória cultural e humanista (considerando as fronteiras como extensão da “propriedade privada”). Segundo o filme referido, muitos proprietários (leia-se: latifundiários) destroem monumentos históricos ou achados arqueológicos antes que os departamentos de arqueologia tenham conhecimento deles, de modo a não impedirem a exploração das suas terras, em detrimento de um bem comum: o conhecimento dos nossos antepassados.

Maureen Fazendeiro é menos explícita, mas o tema está lá, interligado com as diferentes narrações que o seu projecto convoca com curiosidade, mas nunca com frontalidade.