O sangue corre na família

Após o sucesso inesperado de “Texas Chainsaw Massacre”, filme-choque que ruminava splatter e cuspia um exploitation desencantado e grudado, a produtora Cannon Group “perseguiu” Tobe Hooper para conduzir uma antecipada sequela enquanto tinha o realizador na sua alçada. No entanto, o realizador não tinha interesse em regressar a esse universo sombrio, a não ser por outras vias, mas houve ‘forças’ que o motivaram para esse retorno, nomeadamente o fracasso “Invaders from Mars”. Paralelamente, havia ainda o desaguar de um outro percurso: o do argumentista L. M. Kit Carson.
Depois de ter escrito “Breathless” (Jim McBride), a “refilmagem” americanizada de “À Bout de Souffle”, de Godard, e mais tarde “Paris, Texas”, de Wim Wenders, Carson recorda como, aquando deste último, alguém lhe disse: “eis o filme que te vai meter no mapa!”. “Portanto, teria de sair do mapa”, afirmou num dos depoimentos incluídos no making of “Texas Chainsaw Massacre 2: Runs with the Family”. O filme escolhido para essa evasão ao prestígio foi precisamente a sequela do êxito de 1974, que, num deslize de tom (agora mais próximo da comédia negra), faria Hooper querer regressar ao seu ponto originário como promessa de renascimento.
“Texas Chainsaw Massacre 2”, ao contrário do grotesco viscoso da partida, é um objecto carnavalesco, histérico, onde as serras eléctricas se assumem como alusões fálicas e os hippies dão lugar aos yuppies enquanto nova “carne para o tacho”. Um ano antes da façanha cómica de “Evil Dead 2”, Hooper observa a sua recém-formada franquia pela lente da sátira, aquela que, segundo o próprio, já se insinuava entre os horrores e o choque do primeiro “Texas Chainsaw Massacre”. Ninguém viu?
Aqui, assumindo esse exagero, o choque manifesta-se nas blasfémias excessivamente presentes cometidas à época. A segunda parte prossegue numa tradição de sequelas que se desviam do curso hoje canonizado da continuação: é quase um filme à parte, ligado apenas por um ou dois pontos e por uma figura antagonista central — Leatherface, com Bill Johnson a ocupar o lugar emblematicamente deixado por Gunnar Hansen e… ora bolas, apaixona-se por uma das vítimas, tentando simultaneamente iniciar uma actividade sexual sem nunca largar a sua serra de estimação. Dennis Hopper surge como ligação indirecta ao filme de 1974: um xerife obcecado pela vingança, assombrado por uma das vítimas do primeiro tomo. Com isso, enfrenta uma família de canibais que, pasme-se, baptizado pelo nome de Sawyer. Pelo meio, há um esgrimir de serras e Bill Moseley num dos seus papéis mais hilariantes, como um dos “fraternos” de Leatherface (o actor seria resgatado por Rob Zombie num punhado de trabalhos seus, como devoção à franquia)

Num clímax envolto num cenário dantesco e circense, um parque de diversões abandonado, rimando com outro trabalho de Hooper, “The Funhouse” (1981), “The Texas Chainsaw Massacre 2”, apesar dos desvios, e uns cortes e intervenções do estúdio que mutilaram parte do enredo e deixaram de fora algum trabalho prático de Tom Savini, não agradou os fãs (a mudança de Sam Raimi foi mais bem aceite), nem críticos, e até alguns dos envolvidos (Dennis Hopper o considerou o seu pior filme , até à chegada de “Super Mario Bros”), o que fez com que a saga seguisse caminho seguro num terceiro e inofensivo filme (chegando depois a um embaraçoso quarto filme, com uns jovens Matthew McConaughey e Renée Zellweger, em 1994) e fosse hoje motivo exasperante para remakes, homenagens, reboots ou reinvenções sem a dita invenção envolvida. Mesmo assim, esta sequela maldita é como um vistoso e aparatoso acidente, se houver parafilia no meio, há quem consiga encontrar a sua “beleza nas pequenas coisas”.
E quanto a Hooper, ainda teve alguns “dias felizes” e meio conturbados, seja na produção do seu maior êxito “Poltergeist”, segundo consta filme silenciosamente arrancado por Steven Spielberg, e uma colaboração com John Carpenter (“Body Bags, 1993) e umas quantas com Robert Englund (“The Mangler”, “Dance of the Dead”), o restante foi tentar concentrar e persistir num gênero que no fim de contas não lhe foi simpático de todo … mas isso fica para outra serralharias.
"You have one choice, boy: sex or the saw. Sex is, well... nobody knows. But the saw... the saw is family."