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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

O que ainda falta perguntar a Oliver Laxe? "O deserto, de certa forma, ajuda a bloquear o lado cognitivo do cérebro"

Hugo Gomes, 31.08.25

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O que resta perguntar sobre “Sirât”? Oliver Laxe esteve em Portugal na digressão da sua terceira longa-metragem, obra que tem arrecadado elogios de Cannes até cá, quase como uma travessia imaginária, essa que, embebida no título e no seu significado islâmico (a ponte que, segundo o Corão, une o mundo dos vivos ao Inferno), insiste na imprecisão como forma de sentido. Surgem os dissidentes que contrariam o consenso, e ainda bem: é dessa fricção que a viagem se constrói, feita de sensorialidade que abala narrativas convencionais e aponta, no horizonte longínquo do deserto, para um cinema a ser interpretado, configurado, ou, antes de mais, sentido. Qualquer que seja a posição, é um dos filmes-marca deste ano.

Mas regressamos à jornada de Laxe: a sua passagem por Portugal trouxe-lhe encontros com órgãos de comunicação, instituições, associações, críticos e curiosos, até chegar a mim, num curto intervalo de tempo. E tempo, como já dizia o outro, é relativo. O que perguntar quando não é infinito? E mais: o que perguntar quando Laxe parece ter já descodificado tudo em “Sirât” (mentira). Porque o filme, afinal, é obra sobre um fim: o da Humanidade, o da Civilização, o do século XX e dos restos que projecta no XXI, promessa de tempos apenas artificializados na memória.

O que resta perguntar, então, sobre “Sirât”? Talvez nada, ou tudo. Esta curta conversa é esse desafio: falar de um filme que, nos últimos dias, parece já ter sido completamente explorado pela crítica e pela imprensa.

Numa outra entrevista, mais concretamente ao jornal Público, referiu que o esoterismo, principalmente como caracterização ao seu filme, não lhe é considerado uma ofensa. Pode-me desenvolver um pouco essa ideia, e o que é para si o esoterismo, e o que lhe mais fascina nesse estado?

Sim, claro. O esoterismo é uma palavra que, apesar de poder parecer distante ou até elitista, é na verdade bastante familiar. Está presente nas formas, nos símbolos, naquilo que nos rodeia, mas que muitas vezes esquecemos de ver com profundidade.

Normalmente esquecemo-nos que o esoterismo tem o seu reverso: o exotérico, que é aquilo que está à vista, acessível a todos. Já o esotérico aponta para o interior, para o invisível, exige um certo silêncio ou escuta. Gosto de pensar nesta dualidade como uma dança entre o masculino e o feminino. O exotérico está mais ligado ao masculino — à estrutura, à geometria, à ordem. O esotérico, por sua vez, aproxima-se do feminino — do lírico, do ambíguo, da intuição.

A arte, para mim, é uma questão de proporção, de equilíbrio entre estas duas forças. Quando esse equilíbrio é alcançado, cria-se um espaço em que o espectador pode sair de si, transcender a linguagem, tocar algo que está para além do racional, e muitas vezes, para que isso aconteça, para que a imagem penetre realmente no espectador, é preciso cortar através da massa, do ruído. É preciso esculpir espaço para que a poesia possa entrar. A rosa, que aparece como símbolo, representa isso mesmo: beleza, fragilidade, mas também resistência.

No fundo, trata-se de encontrar esse momento de conexão profunda, em que saímos de nós próprios para tocar algo maior, algo que nos transcende. O caminho vertical que o cinema, quando está vivo, ainda pode percorrer.

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O seu filme move-se numa fronteira muito delicada entre aquilo que se sente e aquilo que se compreende. Mas antes de irmos mais longe, precisava de fazer uma pergunta quase óbvia: esta não é a primeira vez que filma no deserto. Já o tinha feito em “Mimosas”, a sua primeira longa-metragem. Portanto, quais foram os desafios de estabelecer uma narrativa nesse espaço? Num lugar onde, à primeira vista, parece não haver nada — o deserto como ausência — mas que, ao mesmo tempo, contém tudo?

O deserto, de certa forma, ajuda a bloquear o lado cognitivo do cérebro. Obriga-nos a desligar a parte racional. E esse é, no fundo, um dos objectivos: como desligar esse ruído? Como manter a atenção de uma forma diferente, mais receptiva, mais sensível? 

O deserto simboliza um estado, uma fase de evolução do ser humano. É como se o ser tivesse de atravessar o vazio, despir-se de tudo, perder-se para poder encontrar uma luz interior. É necessário perder-se para chegar a esse lugar de verdade, e é preciso esvaziar-se, deixar para trás muitas coisas. Em muitas tradições espirituais, o ser humano tem de se tornar vazio para poder acolher o todo. Como disseste … e muito bem: o nada e o tudo coexistem. O zero e o um. Há uma lógica binária, mas que não é tecnológica. É metafísica.

Esse “um” ao lado do “ser” representa também a ideia de morte simbólica: é necessário morrer antes de morrer. Essa é uma das máximas presentes em muitos caminhos espirituais. Só ao passar por essa morte interior, por essa anulação do ego, é que o ser pode verdadeiramente renascer. É uma travessia, não tanto geográfica, mas espiritual.

Esse “um”, esse “zero” que referiste… bem, em “Sirât” vemos uma Humanidade — ou melhor, a representação dela através de um grupo de indivíduos — que caminha para a sua própria destruição. Diria até que o Oliver é descrente no projeto da Humanidade? Que estamos, de certa forma, a marchar para a Morte?

É preciso manter uma certa inocência… ou pelo menos, não perder de vista a possibilidade do bem. Não se trata de ser ingénuo, mas também não podemos cair num cinismo total. Sim, é verdade, há sinais preocupantes. Vivemos tempos difíceis. A dignidade humana está constantemente ameaçada. A questão é: como é que vamos conseguir manter essa dignidade?

Fala-se muito de direitos humanos, e eu acredito que sim, eles representam uma certa dignidade, uma tentativa de preservar o valor do ser humano. Mas também sinto, honestamente, que muitas vezes perdemos o essencial. Penso, por exemplo, numa criança. Uma criança é talvez o maior património espiritual que a Humanidade tem, e se essa criança não é vista, não é protegida, então o humano deixa de existir verdadeiramente.

Estamos a construir um mundo que parece mais interessado em produzir do que em cuidar, mas ao mesmo tempo, ainda há momentos — pequenos, silenciosos — em que vemos alguém simplesmente querer viver. Querer rir. Querer amar. Querer existir com leveza. E isso é sagrado.

Então a vida é atravessar um deserto?

Sim. A vida é atravessar um deserto. Só que, felizmente, sem deserto, não há liberdade. O deserto é o lugar do essencial. É duro, sim, mas ao mesmo tempo, aquilo que sobrevive no deserto, uma planta, por exemplo, carrega uma força e uma riqueza interior que não se encontram noutros lugares. O deserto, tal como o cinema, ou a espiritualidade, é uma prova, e também uma promessa.

Esta é aquela pergunta inevitável sobre os próximos projectos, mas aqui pergunto desta maneira de revisitação - depois de “Sirât”, tens vontade de voltar ao deserto?

Não sei… Neste momento não estou a pensar em novos projectos de forma concreta. Mas… pode ser. É possível que volte.

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E aproveitando a deixa deste filme ser recheado de referências bíblicas (e do Corão também), digamos que é um êxodo …

Aliás, o Êxodo é um livro muito interessante da Bíblia. Pode ser que algo venha daí, mas para ser honesto… ainda não sei. Ainda está tudo muito em aberto. Também tenho o desejo de filmar em vários lugares, não só num só espaço, mas em diferentes cantos do planeta. Talvez o próximo filme seja mais… errante.

A correr o planeta… Quem sabe, numa volta ao mundo?

Ao mundo? [risos] Sim. Porque não?