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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

O malabarista em Nova Iorque e o acidentado incidente ...

Hugo Gomes, 18.11.25

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No início da década de 80 [data de estreia], ainda a respirar a contracultura dos 70, com a Nova Hollywood como base e a violência nova-iorquina, justicialismos e outros ‘ismos’ à altura, pairavam na latrina que é o ar desta Nova Iorque em convulsão cultural e identitária “Night of the Juggler”, assinado por Robert Butler (apesar de um terço da obra ter sido dirigido por Sidney J. Fury, que abandonou a produção devido à lesão de James Brolin, motivando uma paragem na rodagem em ‘78), um filme cuja premissa parece uma piada de mau gosto: um ex-polícia, agora camionista, Sean Boyd (James Brolin), corre contra o tempo para salvar a filha adolescente (Abby Bluestone) das mãos do seu lunático sequestrador, que a confundiu com a filha de um empresário abastado.

Fazendo justiça pelas próprias mãos, lança a cidade no alvoroço e deixa a polícia à sua ‘coca’, enquanto resolve alguns assuntos pendentes pelo caminho. Tudo para perseguir o arquétipo histriónico de Travis Bickle: Gus Soltic (Cliff Gorman), homem desesperado, assumidamente racista, que vê o seu gueto, segundo a sua “perspectiva”, ser invadido por um conjunto de culturas e etnicidades que desconhece, e que pouca vontade tem de as conhecer (apesar do filme apontar de forma indirecta à contaminação cultural e não a inserção social como parte dessa repugna característica do vilão).

Night of the Juggler” é, tematicamente, um produto do seu tempo (adaptado de um thriller literário de William P. McGivern, publicado em 1975) e da sua cor: agressivo, contextualizado ao seu modus operandi, mas nem por isso merecedor de desprezo. A malapata de Boyd é o pretexto ideal para explorar os espaços da Big Apple fora dos postais turísticos: o suor detectável dos corpos, a sujidade das ruas, a decadência de uma população reduzida ao status quo. Um filme que remexe nas classes sociais, fazendo delas caso e acção (... e reacção), expondo as consequências desta miscigenação numa cultura entregue ao seu mito (o mesmo que hoje ecoa nas políticas em curso nos EUA, na sua branquitude e na lavagem histórica de um “autêntico” americano, supostamente ameaçado por culturas de outra ordem). “Night of the Juggler”, para lá da sua temática subtilmente sociopolitizada e com isto sem ceder na agressividade nem no retrato cru da repulsa étnica e cultural do antagonista (que ainda junta ao rol de pecados capitais sinais de pedofilia), é um thriller carpinteiro que dificilmente vemos hoje produzido no seu biótopo cultural: violência em punho, meios escassos e um certo “desenrasque” quase slapstick no nosso acidentado “herói”. 

Logo de entrada surge uma perseguição quase-gincana pelas ruas e estações metropolitanas, com Boyd a tentar impedir o sequestro da filha, numa maratona atribulada, filmada com igual intenção física, usando Nova Iorque e a sua topografia como recreio e circo de grande ecrã (o cuidado da decoupagem, e o pensado uso e não-abuso do mesmo traduz esse frenesim enraivecido, credível e angustiante). Recorda, a passos, os feitos de “The French Connection” (William Friedkin, 1971): perseguições que, décadas mais tarde, seriam limpas, ordeiras, polidas por stunts capazes de nos fazer invejar. Mas em “Night of the Juggler” a acção é tudo menos glamourosa … diria até tão suja como a cidade que pinta.

Uma cápsula temporal a merecer redescoberta…

O filme será exibido na iniciativa Passos no Escuro, [Porto], no dia 19/11, pelas 22h00 (mais informação aqui)