O luto na pedalada

Lidar com o luto. Replicar os últimos passos na sina de uma verdade, talvez desvendada numa epifania dilacerante; ou, por outro lado, performatizar o pesar, a dor, a perda, fazendo disso arte. Recordo Petra Costa, realizadora brasileira hoje entre os párias do cinema político do seu país, embora com vislumbre internacional (com o auxílio daquele N vermelho chamado Netflix), em tempos, antes de “Apocalipse nos Trópicos” ou “Democracia em Vertigem”, seguia um rasto na tentativa de uma última presença da irmã, Elena Andrade, actriz que se suicidou em Los Angeles. “Elena” (2012) nasceu desses sentimentos. Costa coreografou um vazio, poetizou-o em quadras e imagens teatralizadas, um bailado com o não-existente; levou a mãe ao território que, em certa altura, a filha havia pisado. É um dos filmes mais belos, doridos e incómodos do novo século (afirmo-o com todo o exagero assumido).
Já “À bicyclette!”, realizado pelo actor Mathias Mlekuz (o apresentador de TV de “Pola X”, de Leos Carax), é igualmente uma licença de nojo trabalhada artisticamente. No que sabe, e no que melhor se adequa à sua perda, decide, juntamente com o amigo e também actor Philippe Rebbot (mais o cão), num Eurail, de bicicleta ou por outros meios, seguindo o trilho final do filho, Youri, antes de este ceder ao ceifeiro. Fá-lo num registo resistente, algures entre documentário, vérité e ficção (acreditamos nisso, nem que seja pelo pensamento de pós-produção aplicado a todo o material recolhido). O que encontramos é, assim, mais um diário de viagens com o luto como foco central. Nós, espectadores, assistimos às várias tentativas, encaramos toda essa trip numa disposição indigesta, numa libertação encontrada pelo actor através da sua arte, e até somos levados a culpá-la pela fraca originalidade com que se concentra tal registo (há uma persistência a ser tearjerker ou até ser demasiado palavroso com o que não consegue transmitir por imagens).
“À bicyclette!” dói na alma pela humanidade que habita os bastidores deste objecto; enfraquece-se, porém, por ser exactamente isso: o produto encontrado para manifestar o sentimento, a correnteza, a “descoberta” do filho perdido. Sobre o luto há mais tinta e fita a correr … ou neste caso, a pedalar.