O Homem-Elefante

Werner Herzog, cineasta de obsessões, convicto em ver o seu reflexo nas obsessões dos outros. Poderíamos enumerar quais foram “visados” da sua câmara, ao longo dos seus diferentes filmes, mas em matéria documental (talvez por interesse em alavancar-se mundo adentro, ou como alternativa a ficções cada vez mais limitadas nas suas possibilidades), entrega-se a homens e mulheres obcecados pelas suas respectivas “baleias brancas”. Foi exactamente com esta expressão melvilliana que menciona “missões” após ouvir o desejo do naturalista e conservacionista Steve Boyes em encontrar os “elefantes fantasmas” (supostos descendentes diretos de Henry, o maior elefante africano alguma vez registado, abatido por um caçador desportivo e levado para o Museu de História Natural de Smithsonian, onde é hoje exibido como um adorno de boas-vindas aos visitantes da instituição).
O espécime continha o dobro do tamanho de um ordinário paquiderme (11 toneladas frente a “normais” 7 a 8 toneladas), vivia nos arredores de Angola, onde tribos locais alimentam o mito desses animais esquivos, de rastos quase invisíveis, com histórias de terras sagradas, distorcidas de todas ordens naturais, e cuja a Vida aí surgia por uma hipótese inaugural. Serão os elefantes e Homens frutos do mesmo ventre? Por enquanto a expedição parte ao encontro dessas bestas de outras orações, com o intuito de, não apenas verificar a sua existência, como também de recolher amostras que possam ligá-los ao “gigante caído” do outro lado do oceano.
A fantasmagoria da peça estremece Herzog, que prima pelas suas habituais idiossincrasias: a montagem em concordância cómica com uma narração descontraída, por vezes cultuada com o seu mundo interior (o realizador tem muito desses relatos para mostrar), até ao próprio objeto de estudo, prolongando a tese até à confissão. Não é dos seus exemplares recentes a merecer ponto prévio num possível obituário (cruz credo … desejamos a Herzog ainda uns valentes anos!), mas reencontrar os seus temas, as suas amarras, a cumplicidade com homens determinados em concretizar os desejos mais profundos, sim, é sempre um prazer, e a sua conjuntura algo desengonçada e multidisciplinar responde violentamente ao formato institucionalizado da National Geographic, que ponto curioso, é produtora deste seu projecto. Que bom revisitar Werner Herzog e confrontá-lo com o espelho das suas ambições.