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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

O grito que desce da Terra

Hugo Gomes, 16.04.22

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É nos seus imundos aposentos, isolado e possivelmente inconsolado, que Deus comete o seu suicídio, esquartejando-se, arrancando pedaço a pedaço da sua carne, aquilo que todo o Homem cobiça como Santo Graal é matéria desperdiçada, aliás descartada como uma mera inutilidade até se esvaziar em sangue. Uma maldição de quem tomou a Criação como garantida e que se despede desse mundo habitado por mortais, não com dignidade, mas com a maior das sujidades.  

A morte de um Deus tem algo de simbólico, e quiçá Nietzschiano, uma realidade sem autoridades divinas que nos possa comandar … porventura, será desta forma que os humanos serão livres, ficando somente com as suas convicções? Porém, é no seu “corpo”, defunto que reparte e gera a sua companheira - “Mãe Terra” - que aproveita os despojos mortais do seu criador para fecundar nova vida, quem sabe uma nova entidade que os sub-endeusados possam venerar. Dessa gestação difícil surge-nos o rebento defeituoso a quem chamaremos “Filho da Terra”, um ente deficiente cuja respiração soa-nos suplício, pedido agonizante para que a sua vida seja retirada, o merecedor descanso, o fim daquela aflição a quem chamam de “viver”. Grotescamente, é a Humanidade a o fazer, a cometer o golpe misericordioso, destruindo, despedaçando, até não restar nada desta Terra, desta Religião, destes intérpretes.  

Contrariando as vozes que me avisaram com antecedência - “não procures interpretação em 'Begotten''' - procurei lê-lo à luz do crepúsculo vindo da ala do projecionista. E como qualquer escritura, ou religiosidade que sobrevive nestes milénios, é a nossa interpretação que orienta como a sua “lanterna”, dela nasce as nossas vontades, aliás, a nossa condição para com este Mundo. Em “Begotten”, obra experimental, que em seu jeito, ou melhor, desajeitado, evidencia-nos uma experiência no limite da sua loucura infernal. Segundo consta, foi em 1989, vindo da Escola de Cinema de Nova Iorque, que o na altura jovem de 26 anos, Edmund E. Mehige, estreava com este ensaio underground orquestrado por um grupo de teatro amador [TheatreofMaterial], o que sairia daqui fascinou nomes de respeito como o crítico Scott MacDonald ou a filósofa e ensaísta Susan Sontag, a sua maior defensora, cujo ávido acompanhamento levou o realizador a responder com uma seguinte homenagem (“Din of Celestial Birds”, 2006).  

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De Mehige, sinceramente, nada de notável brotou na sua carreira (o seu título mais vistoso, "The Shadow of the Vampire”, releitura da rodagem de “Nosferatu”, de Murnau, gozou de temporária bênção), mas é com “Begotten”, o de aventurar nele com prévios avisos de uma perturbadora experiência em sala, um filme que gesticula uma aberrante forma de viver. Até mesmo a sua "apresentação" naquela tela, possui algo de perturbador e de não-natural, um achado arqueológico “desenterrado” por mero acidente, cujo contacto com o presente o desintegra a olhos vistos. O som minimalista de Evan Albam, mimetizando o respirar ofegante e arrastado da “criatura” abatida, no qual revemos como o espelho da nossa ignorante crueldade, que de “mão dada” com a sua imagem deteriorada (voluntariamente dando a sensação de objeto reavivado) paira como uma atmosfera que só graças à nossa mórbida curiosidade nos faz penetrar na sua bizarra tortura.  

Homens contra entidades sobrehumana, ou o natural vencido pela incompreensão dos Homens? O que é certo, que por detrás da sensorial “trip”, inclassificável produto das mais deturpadas imaginações, esconde uma declaração de guerra, não aos Deuses, mas ao nosso rumo enquanto Humanidade dividida, refugiada no obscurantismo dos nossos atos. Sim, como qualquer “filho” do criacionismo (ora Eva e o fruto proibido, ora Pandora e a caixa das desgraças, ora Prometheus e o fogo ensinado aos Homens) desafiei os avisos e atribui um significado a essa performance do grotesco. Atrocidades encenadas, como no Inferno, como no Paraíso, como na Terra.