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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

O elefante na sala dos professores ...

Hugo Gomes, 29.06.25

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É inevitável não estabelecer paralelos com "Teacher's Lounge", de İlker Çatak, ao sermos confrontados com este "Lesson Learned", primeira obra do hungaro Bálint Szimler (integrada na secção Cineasti del Presente em Locarno de 2024 e vencedora do último FEST, em Espinho), cuja coluna vertebral se constrói em torno de Palkó (Paul Mátis), uma criança relocalizada da Alemanha para a Hungria, cuja experiência escolar se converte numa arena de confronto, tanto com a sua própria inadequação, como com o impacto do desencaixe cultural perante o novo país.

Mas onde "Teacher’s Lounge" e "Lesson Learned" verdadeiramente se cruzam é na figura da jovem professora idealista (aqui sob a pele de Anna Mészöly), em certa medida estigmatizada pelos colegas e incompreendida pelos pais (sem, no entanto, a consoante óbvia da inamizade das crianças para com o seu docente). E as convergências ficam por aqui. O confronto entre mundos distintos resulta numa exploração do ambiente escolar — das reuniões de pais às conversas no recato da sala dos professores, com situações provocateur que nos colocam na posição de julgadores, influenciados por uma mise-en-scène próxima da do sueco Ruben Östlund e dos seus constantes jogos geométricos. É um filme de ambiências, que espicaça o espectador de forma constante e, entre silêncios e zonas de vazio, implementa uma crítica sussurrada ao seu meio natural. Será este o espelho possível de uma Hungria contemporânea, vista e televisiva nos nossos medias ou da “orbanização” dos seus sistemas, incluindo o educacional? 

Esses ventos e discordâncias pairam. Mas "Lesson Learned", como o título parece sugerir, evoca lições aprendidas com gosto, uma delas,a recusa de impor uma interpretação única, confiando ao público a liberdade por onde acorrer; outra, a deambulação pela alusão (ou alegoria, como se quiser chamar), através de uma peça de teatrinho escolar, e é aí que as nossas aliciações se revelam. Szimler filma essa sequência como um sonho, um banho onírico que nunca se verga à tentação do failsafe, porque é através dessa perspectiva ( a das crianças sob a sua encenação da Roma Antiga) que lidamos com os nossos próprios fantasmas.

Uma primeira obra plena, discretamente provocadora, sem com isto ser-se fácil.