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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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O cancro maligno do terror de degustação

Hugo Gomes, 18.09.21

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Sublinho que James Wan é um tecnicista. É necessário que, para o seu cinema vingar em tela, exista alguém que reforce a sua genica, empurrando-o e incentivando-o criativamente. Seja Leigh Whanell ou o produtor Jason Blum, cúmplice necessário para transcrever uma técnica em prol de uma estética e consequentemente com um conteúdo. Nada contra, existem muitos “autores” que se vingam pela forma como se posicionam ou narram as ditas desventuras, só que “Malignant” parece ser eventualmente essa afirmação autoral acima de uma verdadeira orgânica da essência.
 
A esta altura, muito foi escrito e descrito sobre o filme, supostamente independente, de um dos mentores de “The Conjuring” e “Saw”, duas importantes sagas do género de terror do século XXI que redefiniram exatamente isso para as mesmas gerações. “Malignant” é somente a citação de um legado, um giallo prescrito e homenageado pelo próprio, o qual tenta transladar uma certa sujidade e artesanato a uma indústria de requinte propícia a “copy and past”. Nesse sentido, as referências, aquelas “piscadelas” no olhar do aficionado ou do cinéfilo mais saudosista, são dilacerados e misturados numa papa pronta a servir. O que basta é comer, saborear e automaticamente sermos invocados numa espécie de proustiana sensação de reciclagem. Sabendo nós, que o terror, nada ou pouco parece reinventar hoje em dia, o legado persiste na fórmula adequada de propagação, James Wan comete o erro da fanfarrice na sua recitação, não deseja inovar, nem sequer ser o tal e formado James Wan, apenas sentar na mesma mesa posta com os outros ditos mestres, seja Dario Argento, seja Brian De Palma, seja Luci Fulci ou Wes Craven (possivelmente o maior dos signos desta obra), tudo, aspirações (não inspirações) para o nosso malaio indiciar nestas jornadas de calafrios.
 
Mas como havia refiro no início do texto, Wan é um tecnicista, e como tal é na técnica que se vinga, trabalhando, como sempre, os espaços e transformando-os em palcos de assombrados gags, ou colocar o espectador no centro da ação, como o travellingant farm” com finalidade de nunca nos deixar à deriva dos jumpscares, mas, por infelicidade do próprio Wan, tal tem sido um truque recorrente na saga que o próprio criou (sim, falo desses Conjurings e Annabelles da vida). Contudo, é essa ambição de Wan em tentar envergar pelos mestres do costume, que não o separa de outro James querido da crítica - o Gray - que por si é também mais tecnicista que autor. Aliás, hoje em dia, a noção de autor do cinema encontra-se mais acorrentada à recriação de gestos antigos do que propriamente a um universo próprio.

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