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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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No quarto com John & Yoko

Hugo Gomes, 27.10.25

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Em 1972, John Lennon deu aquele que seria o seu único concerto completo a solo: “One to One Show”, ao lado de Yoko Ono, um evento de angariação de fundos para as crianças residentes da instituição psiquiátrica de Willowbrook (uma peça jornalista de Gerardo Riveria sobre a decadência do espaço e o surto hepatite motivaram-os a organizar o espectáculo de caridade). O filme, que apropria-se em parte da designação do concerto, desenha-se no preâmbulo desse episódio, com Lennon já fora dos Beatles e a abraçar o ativismo em conjunto com a performatividade da sua cônjuge.

Kevin Macdonald, realizador variável entre documentários de músicos (Bob Marley, Whitney Houston), alpinistas ("Touching the Void", 2003) e ocasionais ficções para todos os gostos (destaco “State of Play” em 2009), trabalhou com material inédito e imagens restauradas para erguer este objeto na sua trajetória histórica. Mas o ponto mais fascinante não é apenas a chegada ao destino. Aproveitando a declaração do cantautor perante o “pequeno ecrã”, o qual traça um paralelismo com a sociabilidade em torno das fogueiras, quando os temas quentes de uma sexta-feira à noite são ‘televisados’, o realizador reconstrói o quarto do casal, aquele refúgio intimista com olhos postos no Mundo à distância, e a partir daí são as imagens que falam, independentes, sustentadas apenas pelo alicerce da montagem.

Entre programas de variedades, politiquices documentadas, shows e intervenções de Lennon e Ono no universo televisivo, intercalados com chamadas gravadas do casal com outros interlocutores, “One to One: John & Yoko” não serve apenas como explicação da génese do tão célebre concerto. Nos encaixes dessa preparação constrói-se também um retrato da América contemporânea: dos horrores ocultados ao público durante a Guerra do Vietname; da segregação racial em choque com novas revoltas populares e minorias exaustas; do Caso Watergate à desilusão política durante e pós-Nixon; e de uma iminente guerra civil, ameaças constantes em horário nobre, que, vista hoje, parece uma distância falaciosa.

Macdonald afasta-se das talking heads e dos lugares-comuns habituais neste tipo de documentário, usando John & Yoko como Virgil's, sem sair do quarto, de um tempo cada vez mais valioso em eras de pós-verdade e de revanchismo histórico, que colocam nestes dias esperneantes, a História como um caso de interpretação individual. Mas, em “One to One”, há uma verdade imaginada, porque a alternativa, a fantasia cantarolada pelo ex-beatle como utopia harmoniosa, é vista, no aceleramento da Modernidade, como loucura, delírios de sonhadores fora-de-prazo.

Nada se aprendeu. Os erros são maiores, mais esdrúxulos e espampanantes, já o filme — a montagem como última fronteira do documentário musical — resiste. Até porque de interpretações alheias estamos, há muito, saturados.