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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

No continente da empatia, a letargia domina o Cretáceo

Hugo Gomes, 08.01.26

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Radu Jude tomou a sua decisão: fazer do seu cinema um espelho de Perseu, confrontando as sociedades com verdades cruas (leia-se horrores) em que muitos preferem não acreditar. “Kontinental ’25”, inserido nesse percurso (e o de ser uma vénia a "Europe ’51" de Rossellini), cumpre esse desígnio, de uma forma ou de outra, seja pela via narrativa, seja pela expositiva, preparando o terreno para o que vem a seguir.

Aqui, tudo é provocação, ou deliberação, entenda-se, a história acompanha uma agente de execução (Eszter Tompa) que, após o suicídio de um sem-abrigo, a quem executara o despejo em nome de um processo de valorização imobiliária nos arredores da Transilvânia, entra num precipício de culpa. Uma culpa que a faz abdicar das prometidas férias na Grécia, discutir arduamente com a mãe de ideias fascistas, doar dinheiro a toda e qualquer organização ou caridade (o filósofo Slavoj Žižek descreve este mecanismo como “capitalismo não-culposo”: a artimanha da solidariedade enquanto abstração da culpa gerada por gastos e consumismos desenfreados) e Radu Jude filma toda essa jornada em busca de penitência, epifania ou redenção (não encontra nenhuma delas e muito menos a última) com um Iphone (instrumento representativo do sistema que tanto critica, o capitalismo ora bem … mas deixemos esse pormenor para outras estâncias). 

É na desesperança com que capta esta interação com o novo mundo, a nossa actualidade, que se evidencia a procura de uma empatia corajosa, hoje em vias de extinção neste continente e nos vizinhos. Curiosamente, o filme abre com dinossauros: atrações sem visitantes, vultos de criaturas passadas, não só esquecidas como reconstruídas graças à imaginação humana. Dominantes na Terra. Tornaram-se mascotes, animatrónicos, objectos museológicos deixados à mercê do tempo, privados do fascínio de outrora. Enquanto isso, um sem-abrigo recolhe lixo nas imediações, sem prestar a mínima atenção aos bicharocos que rugem e se movem mecanicamente.

Mais tarde, esse parque jurássico de terceira categoria é convocado numa pequena profecia. A protagonista ora, isto depois de um encontro com um padre cujas respostas aos tormentos se limitam a citações bíblicas (a má índole do seu lado é visível: um sermão imperativo, sem compaixão). Mas, regressando à prece, nessa mesma cena, enquanto a agente de execução procura respostas no divino, os dinossauros mantêm-se no horizonte. Na lógica do criacionismo, surgem no plano os símbolos do evolucionismo, o contraditório e a contradição da mensagem (não a do filme, mas a envolvida na narrativa pessoal da personagem). No fundo, é a cascata informativa típica de uma rede social, onde Radu Jude demonstrou encontrar nela, cada vez mais, razões para filmar, como já o fizera em “Bad Luck Banging or Loony Porn” e “Do Not Expect Too Much from the End of the World”, obra sobre o abstrato e os devaneios ideológicos, onde tudo se dilui em matéria desconexa, e provoca mundanidade.

Kontinental ’25” é esse recintar de alto. Mesmo quando o filme tende a subjugar-nos com sermões ou morais sacadas do bolso, é nesta atitude de encostar-se à actualidade que Jude dialoga directamente com a nossa contemporaneidade, mais do que com o espectador. Um último pormenor, em forma de adenda: a Roménia virou à extrema-direita. Talvez seja um dos factores que levam “Kontinental ’25” a procurar humanidade, mesmo quando, para tal, precise de expor a hipocrisia (afinal, parte intrínseca deste mundo que habitamos). O mesmo que a opção do Iphone oops!