Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Nem todo os heróis usam capa, outros usam serrotes

Hugo Gomes, 26.10.23

saw_x_trl1_4k_f_sdr_rec709_g24_20230719.00087627.j

Jigsaw morreu... não é "spoiler", como exige a tradição da "virgindade" do espectador, sabemos disso desde o terceiro filme [2006]. No entanto, ao longo de uma saga que esticou, e esticou a “corda” na sua continuidade, a frase "longa vida a Jigsaw" foi relembrada e proferida constantemente. Um sétimo capítulo surgiu em outubro de 2010, seguindo um padrão semelhante a de um outro assassino de peso - Freddy Krueger ["Freddy's Dead: The Final Nightmare" de 1991] - quando também se proclamou  um fim em vestes nos esquecíveis júbilos das três dimensões.

A “vaca” foi abatida, mas o leite estava longe de azedar, tentou-se ressuscitar a franquia com dois spin-offs [“Jigsaw” em 2017, “Spiral” em 2021], havia uma ideia de legado, copycats ou casmurros a esboçar, mas a reação foi morna, a caminhar para o frio, e isso levou-nos aqui, ao “X” (dirigido por Kevin Greutert, assinante de um dos tomos mais interessantes “Saw VI”), no meio da febre das requels e nostalgias cozinhadas como churros. Tobin Bell retorna ao papel, envelhecido, decadente, a idade não perdoa, condizente com a fragilidade que a sua personagem emana. Deseja-se, não um reboot, mas uma inter-sequela, algures entre o original e o segundo (a cronologia é sagrada, a indústria “aprendeu” isso em mais uma vaga ditatorial, desta vez em contornos ‘marvelescos’). 

É um capítulo bem mais “sério”, contido naquelas habituais montagens à pingarelho que a saga nos apresentou e construído numa espécie de “build-up” aos dramáticos motivos para tanta carnificina. Ou seja, vende-se gato por lebre, o lado meio canastrão, fruto da pornográfica exploração do filão, é agora banhado em prestígio saudosista. A sensação de “cinema sério”, ou pelo menos nos limites da sua industrialidade, é aqui reunida. Não existem desculpas para não apreciar o esforço ou a vénia ao legado (e só passaram 20 anos! Isto das nostalgias estão a cumprir prazos cada vez mais apertados!). Mas então, o que é que me atormenta nisto tudo?

Não se trata das armadilhas altamente gore que me fazem desviar o olhar (pronto, admito, desviei uma ou duas vezes perante a exaltação por sangue e amputações), e antes no próprio tratamento que Jigsaw recebera desde o twist final engendrado pela dupla James Wan / Leigh Whannell em 2004, uma espécie de superioridade moral como impõe lições de consolidação após o sofrimento infligido, na tentativa de lhe conferir uma beatice puramente cristã (o martírio abre portas do Paraíso) no meio daquela guerra entre corpos em estado de sobrevivência. Jigsaw foi gradualmente pintado, ao longo da saga, como um líder de um culto (e intelectualmente onipresente), primeiro pavoneando doutrina, depois seduz-nos para com a sua visão, e por último, totalmente entranhados nessa via, o seguimos religiosamente (quase inconscientemente), enquanto que outros, no meio daqueles “jogos sem fronteiras” mortais viram carnes para calhão, nada mais importa, desde que o espírito do ‘messias’ em mundo amorais esteja intacto e devidamente pregado uma e outra vez. 

SAWX_3-1-1200x675.jpeg

É no “X” que contraímos um efeito heroico nesta personagem que se julga “não matar ninguém”, mas que força as suas “vítimas” a executar esse “trabalho” por si. A mente sádica é reduzida a um homem quebrado pelas promessas de uma sociedade utópica e altruísta, acabando por se revelar num ninho de víboras à espreita. Como Jigsaw vira herói do século XXI? Fácil manobra, colocando as “vítimas” como seres abjetos, ou melhor, inverter o papéis, de vilão a protagonista supremo e a vinda de uma vilã com capacidades de sadismo equivalentes (Synnøve Macody Lund). O filme vira confronto, a vítima enganada contra a charlatã insensível e nesse prisma, nós espectadores torcemos pela vitória do primeiro, até porque identificamos com parte da sua dor (em algum momento fomos enganados, de uma forma ou doutra). Voltando à analogia dos elementos cristãos, Jigsaw mantêm-se verdadeiro à sua esperada natureza, falando de cedência como via de uma vida arrependida e satisfatoriamente plena, na exorcização do nefasto que esta nossa passagem mortal pode contrair, e em certa forma, a absolvição dos pecados (e dos mortais também) que ostentamos enquanto coleção, é o panóptico em pessoa, vigiando e punindo. Do outro lado, a personagem de Lund é uma Judas, uma traidora vendida a meras “30 moedas de ouro”, de alma vazia e escrúpulos reduzidos. O messias contra o seu embusteiro.

Nesse prisma é fácil sentirmos manipulados, até porque o foco deste “X” é no assassino em série de duas décadas, demonstrando a sua compaixão e julgamento pela “inocência” ou como determina tal. Caímos assim na armadilha do filme e todo este universo, cedermos ao heroísmo do vilão com a “cartada” de que existe alguém mais vilipêndio do que ele. E o cancro, doença que no audiovisual converteu-se em uma desculpa dramática barata (esteve envolvido nas piores histórias que o Cinema poderia nos dar), é novamente o elemento evangelizador, como se isso bastasse para que Jigsaw orquestrasse os seus mais dementes jogos, fascistas plataformas, e nós [espectadores] caímos na sua mortal artimanha. 

É um “upgrade” em relação à saga. É um “downgrade" em relação à ética.