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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Não!! Não foi apenas um acidente!

Hugo Gomes, 12.11.25

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Por vezes, sinto que para abordar Jafar Panahi há um conjunto de clichés do “bom cineasta iraniano”, atribuídos e despachados numa espécie de resenha imediata, num coro fácil às preocupações políticas ou à persistência num “cinema de mensagem". Não consigo abstrair desses rodriguinhos; deve-se, sublinhe-se, à minha ocidentalidade, não como desculpa de um certo conforto de sofá, mas fruto de uma dieta selecionada em festivais e muitos circuitos desse cinema iraniano que grita ao resto do mundo: “Eis o que vivemos, as nossas dores, os nossos fantasmas, os nossos medos!

Das cicatrizes ainda por sarar, das vinganças ainda por cumprir, Panahi, cineasta de primeira estância no palco da sua própria cinematografia, compreende-se como um lesado do regime. O cinema que daí emerge é de encontro às comunidades, à população, aos cientes e aos cegos, aos entendidos, aos feridos, aos conformados, aos inquietos e aos pacientes. Depois do seu cativeiro domiciliar, o cineasta expandiu-se nesse cinema de pessoas, fingindo-se taxista em conversas mundanas (“Taxi”, 2015, vencedor do Urso de Ouro), buscando gerações de mulheres em paisagens de tirar o fôlego (“3 Faces”, 2018), procurando ursos onde não os há (“No Bears”, 2022), e agora chegando ao acidente, ou incidente. Escolham vocês que a láurea já lhe foi concebida [Palma de Ouro de Cannes]!

É o medo constante, como trajetória, que une todos os seus projectos até então. A sua coragem deixou de ser chamariz: tornou-se, sem o uso da metáfora como fuga perfeita, uma alusão à transfiguração social. Por vezes kafkiano, por vezes meio sociólogo, noutras, cineasta da guerrilha sem trincheira nem espera. “It 's Just an Accident” nasce de uma espera (de Godot talvez, um reparo das personagem não minha), de um gag, de uma coincidência e de uma dúvida, de um passado que assombra e de um som que atormenta. É assim que Vahid (Vahid Mobasseri) jura, a pés juntos, ter encontrado o seu torturador. Sequestram-o e planeia fazê-lo engasgar-se com o próprio veneno; quem sabe, conhecer por fim a Morte. Perante as negações constantes do alegado agressor, Vahid entra num dilema: “Será ele? Ou os traumas materializam o que pretendo ver?” Procura outras vítimas daquelas “garras” para confirmar a identidade do mesmo.

Surpreendentemente, Panahi enche-se de humor negro, quase caricatural dos vingados e dos vingativos, mesmo que essa pitada de guloseimeice ‘nivelize’ a trama, e o que se mantém escondido, reprimido, adquire avassaladora força na epifania, para alguns, o confronto esperado, para outros. É uma câmara atenta, a que testemunha, capta, regista. Nunca se distrai do seu objectivo. Panahi, maestro desta partitura máxima, enche as medidas, tal como os actores que o cumprem com exatidão. 

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Neles, por instantes, esquecemo-nos da actuação, do artifício, o que vemos é encenação, mas também verdade na entrega, e aqui o realizador não nos soa realizador, de uma produção contrafeita, antes mesmo, um dramaturgo, na procura do seu imediato, da sua performance, na tal “verdade na mentira” (ou será melhor, “a mentira na verdade”?), como Ariel Dorfman, o escritor de “La muerte y la doncella”, reencontro com o torturador de um outro regime, o entre as unhas de Pinochet, que em grande tela é traduzido por Roman Polanski em “Death and the Maiden” (1994, filme de uma estética forte mas enfraquecido com a cedência para com a “vendetta”). Apesar da brutalidade dessa matéria, ao contrário de “It 's Just an Accident”, cuja violência está na sugestão, no perdão, no desconforto, na reação, no gesto de agarrar o outro pelo pescoço e gritar, entre ameaças e lamentos, nada mudará o que passou, mas nas relações futuras, os sinais compreender-se-ão como seus.

Pelos céus! Que forte viagem pela galeria de temas que Panahi sempre nos colocou na dianteira! Ressente-os mais uma vez, sem preguiça de repetição formal, e de novo há uma posição de troça (humanista troça) contra o acto de se tentar vendar. Aliás, a venda nos olhos: o objecto e o gesto mais iraniano do cinema, o dito momento da verdade, cegando as aparências, lançando-as na escuridão. A confissão que nos conduz, quer aos anjos, quer aos demónios.