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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Não há nada melhor que Casa

Hugo Gomes, 10.08.15

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“Porquê que me estás a filmar?” “Porque quero mostrar que não existe distância no mundo“. O diálogo é entre Chantal Akerman, na altura vivendo em Oklahoma (EUA), e a sua mãe, residente na Bélgica – e dá-se enquanto ela filma uma videochamada entre ambas. Trata-se de uma distância física dissipada na sua transposição para a dimensão cinematográfica, onde tudo é possível.

No Home Movie” é, como o título indica, um filme sem lar, longe deste, mas erguido sob a saudade do mesmo. Akerman decide por via dessa poética linguagem que o cinema atribui aos sentimentos e à corporalidade, “fabricar” uma declaração de afeto pela sua progenitora, salientando a sua história de vida, a sua personalidade e adaptando o seu grande amor afetivo que, mesmo nos limites da sua própria vida, encontra-se disposta a retribuir. A cineasta volta a tecer uma obra “pendurada” através do seu rico olhar para com a rotina, a solidão e a melancolia, que atinge e nunca deixa de persistir.

É o seu retorno mais pessoal e novamente descrito sob uma ligeira frescura jovial, bastando relembrar os seus tempos áureos em que citava e redefinia o conceito “godardiano” de cinema. Porém, enquanto Godard, o seu assumido “ídolo” cinematográfico, expôs uma faceta mais liberal e simultaneamente desleixada à linguagem cinemática, Akerman reproduz esse mesmo “adeus linguístico” e, sob o seu signo, o enverga nesta sua “carta de amor” bem personalizada.

Um exercício documental em que a cineasta, uma das mais importantes da sua geração e da conduta do cinema modernista dos anos 70, convida o espectador mais vivido a regressar à sua cinematografia. Porém, tal como aconteceu com Godard nos dias de hoje, esse cinema encontra-se mais que “dedilhado”, sendo possível constatar a conversão dos anteriores vanguardistas em isolados conformistas, intatos como corais perante a maré. "No Home Movie" é isso, uma homenagem sentida à figura matriarcal, requisitada pelos previsíveis desvaires autorais. Possivelmente mais relevante para a própria cineasta (recentemente falecida) do que para História e experimentalidade do Cinema.