Meninos prodígios e palhaços decadentes, os fantasmas de Shia LaBeouf

Shia LaBeouf tem o filme da sua vida (literalmente), do qual é o produtor, argumentista e interpreta o seu próprio pai. Uma para a coleção de extravagâncias da infame/célebre “persona non grata“.
“Honey Boy” nem tenta esconder o facto de que o ator Shia LaBeouf é um egocêntrico com um complexo de inferioridade, e é com estas mesmas palavras que o seu alter-ego – Ottis – é descrito num centro de reabilitação social. Pelo menos, o conceito ego’ é deveras evidente numa obra que em certa parte funciona como uma autobiografia, mesmo que escondida na manobrável ficção, e por outro como uma descoberta de traumas e psicoses tendo como epicentro a figura paternal.
A jovem estrela que entrou na ribalta com os mega-sucessos de “Transformers” e o seu triplamente repetitivo “No” como maneirismo de marca, expõe-se num enredo que serve, à sua maneira, de uma catarse freudiana aos seus fantasmas com causas identificáveis e auto-assumidas. Para tal, conta com a ajuda da realizadora Alma Har’el para transcrever imageticamente o seu guião, elaborando sob os ritmos de uma América profunda de outras infâncias ou juventudes negadas (se brincarmos com as palavras, Honey leva-nos automaticamente a “American Honey”, de Andrea Arnold, ambos respeitando uma certa tendência estética).
Assim, “Honey Boy” proclama-se como um filme de auto-ajuda de forma egoísta e centrada na sua figura-estrela e nos seus problemáticos “daddy issues“. Porém, é através desse narcisismo e excentricidade que nascem muitas obras artísticas com carácter transgressivo. Sabendo que não serão essas as características que extraímos neste filme de encomenda, é mais que curioso depararmos com a vontade de Shia LaBeouf em abraçar a sua imagem de rebeldia ou de síndroma Baby Jean para insuflar um retrato de maus exemplos paternais.
Mas, o ponto que transforma “Honey Boy”, para além da sua suposta vulgaridade, é a ousada escolha de Shia LeBeouf em interpretar o seu próprio pai (um alcoólatra que foi em tempos um palhaço de rodeo), cometendo com isto um círculo perfeito representativo desta mesma terapia. Ottis, o menino “faz de conta” do imaginário de LeBeouf, expressa a determinada altura que foi o seu progenitor a causa para a sua entrada na atuação e é através da dor ensinada por este que se fechou num integrado processo de método. Shia LaBeouf era o único capaz de vestir o traje do seu pai, de mimetizá-lo, de se metamorfosear neste seu símbolo, não somente pela intimidade (ou a falta dela), mas como etapa deste procedimento introspectivo.
Abraçar o “inimigo” para que no final consiga atingir o seu ciclo: “vou fazer um filme sobre ti. / Então tenta fazer-me bonito.“
Será remição? Absolvição? Pura vaidade? Ou, simplesmente, Shia LaBeouf?