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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

MDOC 2025: na fronteira do ser e do saber. Um festival de identidades e memórias em Melgaço!

Hugo Gomes, 27.07.25

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My memory is full of ghosts (Anas Zawahri, 2024)

Melgaço, um ponto de encontro, uma fronteira, uma utopia. A norte, na possibilidade de um país (a menos de 5 minutos da Galiza), há um festival de documentário que celebra a identidade cultural, a construção, proposta nunca escondida, de um arquivo. É o MDOC, a chegar às suas 11.ª memórias, ou melhor, edição. De 28 de julho a 3 de agosto de 2025, são trazidos mais de trinta e três documentários oriundos de vinte e três países, disputando os prémios Jean‑Loup Passek, D. Quixote e, pela primeira vez, o FIPRESCI Prize.

Este ano, o MDOC 2025 estende-se não apenas ao auditório, mas também ao imaginar coletivo: residências Plano Frontal em cinema e fotografia, oficinas com Margarida Cardoso, uma masterclass com Sandra Ruesga e o emblemático X‑RAY DOC, moderado por Jorge Campos, a revisitar clássicos de Chris Marker e Joris Ivens.

Em Melgaço, onde o legado cultural se entrelaça com a ruralidade raiana e o universo sonoro de lendas antigas, o festival revela-se cada vez mais como um gesto de reinvenção cultural capaz de traduzir o real em imagens e narrativas que ecoam para além das fronteiras físicas. E é com essa consciência poética e política que o Cinematograficamente Falando … convida Carlos Eduardo Viana, um dos diretores do festival, para nos desvendar o que está detrás do ecrã e do cartaz, o que move, inspira e transforma este MDOC 2025.

O MDOC afirma privilegiar documentários sobre identidade, memória e fronteira. De que forma considera que estes temas dialogam com a identidade cultural de Melgaço e da região Alto Minho?

Os temas que norteiam o MDOC– identidade, memória e fronteira – dialogam com a identidade cultural de Melgaço e da região do Alto Minho, refletindo tanto a sua história como as dinâmicas socioculturais contemporâneas. A região tem uma memória coletiva ligada às migrações (um grande número de alto-minhotos emigraram para França ou Brasil no século XX), e Melgaço é um território de fronteira (com a Galiza), o que influencia questões contemporâneas (migrações, contrabando histórico, identidade europeia). O tema da fronteira no MDOC pode explorar tanto a geopolítica quanto as metáforas de limites, ou questões pessoais. 

O MDOC, ao focar a identidade, memória e fronteira, não só celebra a cultura da região, mas também questiona como essas raízes dialogam com um mundo em mudança. 

A seleção oficial conta com mais de 30 documentários em competição, incluindo longa, média e curta-metragens. Como funciona a seleção destes filmes e de que forma procuram construir uma narrativa coerente em torno de "Identidade, Memória e Fronteira"?

A seleção de filmes é feita com a preocupação de oferecer obras que expressem o olhar dos autores sobre temas sociais, individuais e culturais, focando os eixos temáticos referidos.

A construção de uma narrativa coerente em torno de "Identidade, Memória e Fronteira" é alcançada através da seleção de longas e curtas-metragens que contribuem para uma abordagem da condição humana face a desafios globais e pessoais. Os filmes mostram como indivíduos e comunidades navegam e reagem a desafios sociais, políticos e existenciais, revelando uma preocupação com questões contemporâneas, como conflitos geopolíticos e lutas por identidade e justiça social. A seleção privilegia abordagens críticas e experimentais, muitas vezes explorando realidades marginalizadas.

O festival integra o programa “Plano Frontal” com residências cinematográficas e fotográficas em contexto local. Como avalia o impacto dessas residências na relação entre cineastas e comunidade local?

O projeto envolve equipas de jovens realizadores, técnicos de som e câmara, que, durante dez dias, produzem documentários e projetos fotográficos sobre temas locais. Essa abordagem garante que as narrativas sejam construídas com os habitantes, refletindo as suas vivências, memórias e identidades. Até agora, 38 documentários foram realizados, todos disponíveis no portal Lugar do Real, criando um arquivo vivo da cultura local.

Os filmes são exibidos durante o festival em diversos espaços de Melgaço, como a Casa da Cultura e várias freguesias, permitindo que a comunidade se reveja nas narrativas e participe do processo cultural. Além disso, a projeção no MDOC/São Paulo (mostra brasileira do festival) amplia o alcance dessas histórias, transformando-as em pontes interculturais. A seleção de obras como "Raiano" para festivais internacionais (ex.: Olhares do Mediterrâneo) reforça o reconhecimento externo do trabalho desenvolvido. 

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Filhos do vosso amor (Rui Pedro Lamy, 2025)

O MDOC está incluído na rede europeia VIVODOC em 2025, num encontro com festivais de Espanha, França, Itália e Roménia. Que oportunidades concretas de coprodução, circulação ou partilha de projetos este enquadramento oferece ao festival e aos seus participantes portugueses?

O MDOC faz parte do VIVODOC, um coletivo recente de festivais de documentários europeus que inclui parcerias com Espanha, França, Itália e Roménia. Essa rede, que integra festivais como o Majordocs, Escales Documentaires, Frontdoc e One World Romania, tem como objetivo principal promover a circulação e o visionamento de documentários europeus.

Em 2025, o MDOC será o anfitrião de um Encontro VIVODOC em Melgaço. O evento vai discutir o futuro e potenciais projetos da rede, além de explorar novas parcerias e colaborações com outros agentes do cinema documental internacional.

A 11.ª edição inclui um workshop com Margarida Cardoso e uma masterclass com Sandra Ruesga. Com que critérios foram utilizados para escolher estes nomes e em que medida estas sessões potenciam o desenvolvimento profissional dos participantes?

As realizadoras convidadas para as atividades formativas do MDOC são cineastas que têm um corpo de trabalho cinematográfico significativo e reconhecido, que dialoga com os temas e os objetivos do festival. As sessões podem contribuir para o desenvolvimento profissional dos participantes de diversas formas, uma vez que as realizadoras partilharão o processo criativo, como trabalham as histórias e lhes dão forma. Serão oportunidades para refletir sobre o trabalho criativo, explorar a forma como documentários e ficções se interligam e influenciam mutuamente, como se transformam observações quotidianas em potencial narrativo, e será um convite para cada participante a refletir sobre a sua própria identidade e lugar na sociedade.

A masterclass com Sandra Ruesga intitula-se “Explorar o Eu: Cinema Autorreferencial e Identidade”. Como espera que esta sessão influencie os formandos do MDOC — especialmente no que respeita à relação entre a dimensão íntima e a construção de narrativas sociais?

Esta masterclass pode influenciar os participantes ao mostrar como a dimensão íntima (experiências pessoais, introspecção e identidade individual) pode ser uma ferramenta para a construção de narrativas sociais mais amplas. Através da obra de Sandra Ruesga os participantes verão como a abordagem da cineasta mostra que histórias íntimas podem refletir questões sociais, culturais e políticas, revelando como as suas próprias vivências podem dialogar com realidades mais amplas. Ao esbater os limites entre o individual e o coletivo, a masterclass desafia a pensar como as histórias pessoais podem contribuir para debates públicos e transformações sociais.

MDOC combina projeções em Melgaço com sessões “Off Screen” e XRAYDOC. Como equacionar o equilíbrio entre conteúdos académicos/profissionais e o envolvimento do público geral?

O MDOC faz-se de várias ligações e públicos. Ao criar o Fora de Campo (Off Screen), a intenção é ligar o festival ao mundo académico e da investigação, assegurando uma programação que atinja um público disponível para pensar assuntos ligados aos eixos temáticos do festival: agentes culturais e coletivos locais, professores e animadores culturais, documentaristas, estudantes, investigadores e outros participantes interessados pelas temáticas escolhidas. O X-RAYDOC, ao divulgar e analisar filmes importantes para uma História do Documentário, já atinge um público mais vasto e liga a história do cinema ao mundo contemporâneo. 

A sessão XRAYDOC coordenada por Jorge Campos propõe o visionamento e análise de dois clássicos: "Lettre de Sibérie" e "... À Valparaíso". Que aprendizagens concretas espera extrair destes títulos para enriquecer o debate sobre ética, representação e história do documentário em Melgaço?

"Lettre de Sibérie" (Chris Marker) e "…À Valparaíso" (Joris Ivens) são obras importantes para discutir o eixo temático Cinema e Território também proposto no FORA de CAMPO – Curso de Verão 2025. Ambos exploram, de formas distintas, as dimensões física, vivida e representada do espaço, articulando paisagens geográficas com narrativas políticas, sociais e poéticas. 

Chris Marker utiliza “Lettre de Sibérie” para nos transportar a uma vasta e complexa região da União Soviética. No filme, o território siberiano não é apenas um cenário geográfico; ele é um espelho das transformações sociais e políticas, das vidas quotidianas dos seus habitantes e das ideologias que os moldam.

Marker emprega uma narrativa em voz off, misturando observações poéticas, factos históricos e reflexões filosóficas sobre as imagens que vemos. Esta abordagem permite que o espectador compreenda como o ambiente físico (o território) e a experiência humana se interligam de forma indissociável. A Sibéria, através do olhar de Marker, torna-se um território em constante diálogo com a identidade e a memória dos seus povos, sublinhando como o cinema pode ir além da mera representação para explorar a alma de um lugar.

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Lettre de Sibérie (Chris Marker, 1957)

O festival propõe debates sobre questões sociais e culturais. Como assegurar que as vozes do Alto Minho, sejam escutadas e representadas nestes fóruns?

Como foi referido a propósito do Plano Frontal, os documentários e os projetos fotográficos que resultam das residências artísticas fazem uma ligação às comunidades locais e dão voz a protagonistas da região. Além do Plano Frontal, a Associação AO NORTE, que organiza o festival, em colaboração com uma equipa multidisciplinar, desenvolve o projeto “Quem somos os que aqui estamos?”. Este projeto exige um trabalho de campo durante cerca de cinco meses, e convida à escuta e ao olhar atento para as histórias de quem vive, viveu ou sente a sua terra como parte da sua vida através de registo audiovisual; recolha e digitalização de fotografias de álbuns familiares; exposição fotográfica e publicação em livro do trabalho realizado.

Com estas iniciativas, o festival não só dá voz às comunidades locais, como também contribui para a preservação da sua identidade e para uma compreensão mais rica e complexa da cultura popular portuguesa. 

Sabendo que o Jean Loup Passek Award distingue filmes com abordagem autoral, como define a linha editorial do júri oficial e dos critérios de seleção para esta competição?

De forma sucinta, os filmes selecionados oferecem um vasto leque de perspectivas sobre como a identidade é moldada por experiências pessoais e coletivas, como a memória atua como força de preservação, resistência e mudança, e como as fronteiras – sejam elas geográficas, culturais, sociais ou pessoais – definem e desafiam a existência humana.

Que planos há para potenciar a sustentabilidade ambiental e turística de Melgaço com este festival?

A propósito deste propósito, refira-se que a EarthCheck, órgão acreditado pela Global Sustainable Tourism Council (GSTC), renovou o selo prata (nível 3) que certifica o concelho de Melgaço como destino turístico sustentável. O festival tem procurado assegurar práticas ligadas à sustentabilidade, nomeadamente: Procura eliminar materiais impressos desnecessários, optando por comunicação digital, ou o uso de materiais reutilizáveis (credenciais, copos, sacos); encoraja a partilha de carros entre staff e participantes. Os colaboradores utilizam alguns veículos híbridos; as refeições para todos os participantes do festival são cozinhadas e servidas numa cantina, o que permite planear as quantidades para evitar sobras; a cantina do festival oferece uma boa variedade de opções vegetarianas, que geralmente têm um menor impacto ambiental; para confecionar as refeições dá preferência a fornecedores de alimentos que utilizem produtos locais e sazonais, reduzindo a pegada de carbono do transporte.