Mau Macaco, Mau!

Talvez seja uma subcategoria de um subgénero muito específico, o terror feral, onde um animal entra em rompantes de violência, invocando medos ancestrais nos espectadores, nomeadamente o receio do selvagem e da percepção da nossa impotência enquanto animais. A tal gaveta em que entra “Primate” é escassa, se não contarmos as fantasias de Pierre Boulle, mais propriamente “The Planet of the Apes”, concentradas noutros medos (a superação à nossa “dominância”); ainda assim, é difícil não encontrar semelhanças entre este filme e “Link” (Richard Franklin, 1986), assumidamente de terror, com Elisabeth Shue e Terence Stamp, sobre símios inteligentes com gosto pelo tormento.
Já na obra de Johannes Roberts, persistente no género (“The Strangers: Prey at Night”, “47 Meters Down”), a situação instala-se entre o filme de cerco e essa feralidade, quando um chimpanzé de nome Ben, criado desde pequeno por uma família abastada e socialmente aceite, por vias estranhas (a raiva é o sintoma) adquire num ápice uma natureza assassina e puramente sádica. “Primate”, por um ou outro momento, consegue esgalhar no suspense, com alguma tensão aprendida não apenas das já canónicas lições hitchcockianas, como também alguns dos melhores exemplares da tag “Homem vs. Animal”: “Jurassic Park”, o original, o de Steven Spielberg, à cabeça (principalmente no proveito da escuridão e dos sons).
Acompanhado por uma banda sonora de Adrian Johnston (com o qual trabalhou com o realizador em “The Strangers”) é um constante flirt à musicalidade de John Carpenter, uma armadilha nostálgica e calórica, ou o jogo de mímica para a sua clara referência- “Halloween”. Quem nos dera, porque “Primate” prefere ser um Michael Crichton nessa situação / comparação de “Parque Jurássico”: macabro e sádico, mergulhando num gore desnecessário e fetichista, capaz de desintegrar as suas valências de suspense. Por outro lado, a narrativa tende a ser maior do que o seu próprio primata (nota de rodapé: efeitos práticos e escassos CGI!!), demasiado longa e gratuita (a meio surgem dois jovens apenas para entretenimento do tal chimpanzé).
Ou seja, “Primate” peca por tentar ser mais do que é e por retratar um animal num sadismo tão próprio dos humanos, e tendo a criatura “fazer parte da família” sente-se uma atitude grotesca de a descaracterizar ainda mais. Uma selvajaria em nome do grafismo extremo, como se o terror, esse medo, vivesse do imediatismo; se não disso, então de jumpscares (começo a duvidar se vivemos numa idade de ouro do terror, mas tal assunto fica para outra ocasião). É uma experiência instantânea, que se perde no teste do tempo … logo após o visionamento.