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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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"M3gan 2.0": Como deixar de se preocupar e amar a Máquina

Hugo Gomes, 26.06.25

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Se o antecessor abria portas a um estilo camp infiltrado, à paisana, na sua camada de cinema de terror sério, consciente da sua atualidade, este upgrade, "2.0", abraça apertadamente esse roliço. É parvo à partida, e não o esconde, até porque esse júbilo abre-lhe portas para uma maior adesão do público (várias idades, várias castas).

Contudo, nesta ‘primazeca’ de "Terminator", com indícios de Philip K. Dick, o contexto temporal em modo zapping insere-o no centro da discussão sobre as ferramentas da IA e os avanços tecnológicos, nomeadamente na área bélica, sem nunca se apresentar como conhecedor do que o rodeia. Aliás, a ficção científica pontapeia o terror e surge como salvadora de qualquer lição moralizadora dos nossos tempos. Nesta sequela, a vilania de "M3gan" é reconstruída para combater uma maquinaria avançada, preparada para a guerra... e para a dominância do mundo (pois!). Por um lado, segue os passos — de fininho — da trajectória daquela tal saga de James Cameron, com o "2" a transformar antagonistas em aliados dignos do nosso carinho. E, daí, penetramos no maior conflito do filme, também inserido noutra tendência: a de uma silenciosa propaganda de amor à máquina.

Enquanto o tal "Terminator 2" e outros congéneres colocavam a máquina no sacrifício pela Humanidade (também recordar "A.I." de Steven Spielberg, onde existe esse descarte em prol de uma higienização entre o homem e o sintético), em "M3gan 2.0" dá-se o oposto: a empatia pelo artificial gera o sacrifício humano por ele, como uma aceitação, ou rendição à Máquina perante o humanismo. Já aconteceu, de forma gritante e subliminarmente, em "Alien: Romulus", onde a protagonista (Cailee Spaeny armada em Ripley de feira) decide largar a sua amiga grávida para arriscar a vida pelo andróide. Um gesto que nos cospe na cara o facto de se dar lugar a estes novos entes, em detrimento da vida gerada por meios biológicos. Já esta sequela, os protagonistas de "carne e osso", tudo fazem para impedir a perda da entidade tecnológica de sucumbir ao seu derradeiro sacrifício. 

Talvez estejamos a ser overthinking quanto aos temas, muitos deles escritos em modo subconsciente nestes filmes. Mas é por esse estado que envergamos pela crítica. Está em curso uma mensagem subliminar, trazida sobretudo por Hollywood e os seus alicerces tecnológicos (não esquecer da Silicon Valley, onde, seguindo o conselho de Hal Holbrooks em “All the President’s Men”, farejando o rasto deixado pelo capital). "M3gan 2.0", exercício disparatado em comparação ao seu downgrade, está a jogar o dito jogo como bem sabe fazer: fingir que não sabe nada. De nada.