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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Licença para viver

Hugo Gomes, 04.11.25

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A travessia pelos cinemas extintos do centro do Recife, acompanhada das histórias e mitologias deixadas pelos projecionistas-fantasmas no seu anterior “Retratos Fantasmas” (2023), pode ser entendida como um repérage conceptual para “O Agente Secreto”. Após esse momento proustiano de reinscrição da memória e da fabulação das mesmas e do tal contacto cinematográfico, Kleber Mendonça Filho repousa agora num sonho acordado, fantasiando enredos possíveis em tela projectada, sem nunca abdicar do zeitgeist brasileiro.

Depois o êxito (ou fenómeno social, diríamos até) de “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, encaramos inconscientemente nesta demanda de Wagner Moura pelos meados da Ditadura Militar uma, e igualmente, espécie de exorcismo para com o passado, revisto e revanchista por saudosos; um duelo para com memórias de um país que, em matéria cinematográfica, trabalha na contrarrevolução dos ventos politizados. Ou seja, o “cinema-resistência” que a cinematografia brasileira nos tem oferecido nos anos recentes, seja na forma escancarada do campo de disputa simbólica (ou guerrilheira), ainda em plena contracorrente face às pulsões reacionárias dos últimos anos, marcadas por agendas ultra-capitalistas da dissipação identitária, seja perante a ascensão de Bolsonaro e do seu ainda por definir movimento bolsonarista (coberto, ano após ano, por novos e inquietantes matizes).

“O Agente Secreto”, por sua vez, brinca com a estética e gramática do chamado “filme de espionagem", sem nunca respeitar a fórmula na sua exactidão: com o seu requisitado protagonista [Moura], despojado de histerias, ressentido e parcialmente reprimido, vivendo como exilado político, cercado e “barricado” na cidade onde outrora ‘ergueu’ uma família. Em suma, é um “cabra marcado para morrer” que caminha dia após dia como se cada um fosse o último. Kleber Mendonça Filho emprega o que sabe sobre cinema e a sua dita espectacularidade num filme politizado mas sem palanque, corroído mas não vencido, agressivo sem marca de dentes: um exercício sobre como filmar tempos (polvilhados com um pouco de “kitsch”) e actualidades em nome do amor cinematográfico (ou a desculpa do mesmo). Dispondo do Cinema enquanto retrato social, o qual encontra aqui o seu lugar reservado na tribuna, com “The Omen” e “Jaws”, dois exemplos de medos colectivos, a funcionarem como separadores temporais e vitrinas de possibilidades narrativas — um enredo invadido por perguntas sobre o que poderá ser e nunca sobre o que será.

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Ao longo de mais de 2h30 somos constantemente despistados por trilhos, atalhos e direcções sussurradamente sugeridas sobre o rumo dessa mesma narrativa; um vento (ou ventos) em sopro incessante. Sim, é saturado (barroco até) e, por desgraça das suas entranhas, por vezes chega a perder o norte, funcionando como um projecto demasiado fascinado consigo próprio. Porém, ao perdoarmos essa confusão involuntária, somos colhidos por grandes momentos de cinema: o prólogo de tensão hitchcockiano, lições aplicadas com sabedoria (dois pontos para Kleber), e uma perseguição crucial, pulsante, para o coração do filme, a revirar no seu clímax sob o prefixo de “anti” (mais dois, medalha à vista!).

“O Agente Secreto” peca por tentar ser tudo e mais alguma coisa, esquecendo que a simplicidade, por vezes, torna a mensagem mais apetecida. Ainda assim, não cortaremos as pernas a quem insiste em sonhar com um ‘cinema grande’ — épico, sem muletas fantásticas (ainda que com pernas cabeludas para o assombro), um espectáculo puro digno da tela. Não cuspimos, mas também não saltamos de alegria: e só para terminar, relembro que o anterior “Aquarius” foi o antídoto dessa ambição.