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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Le Mani Sulla Città: uma outra "mão invisível"

Hugo Gomes, 13.01.14

Rod_Steiger_in_Le_mani_sulla_città.jpg

É possível nas reminiscências do passado obter um reflexo do panorama actual? Com Le Mani Sulla Città de Francesco Rosi a resposta é mais que positiva. Neste consagrada obra de 1963 (vencedor do Leão de Ouro do Festival de Veneza), o espectador encontra-se consciente e constantemente absolvido por um retrato ambíguo e facilmente corruptível da cidade de Nápoles. Dentro dessa mesma cidade literalmente em ruínas, não apenas físicos como pôde ser evidenciado numa surpreendente sequência inicial (um desabamento mais assombroso do que qualquer imagem gerada por computador como é hoje tido como hábito), mas como também nos contextos morais, instalando-se num “ninho de cobras” que é clinicamente demonstrado. Esse mesmo “ninho” tem um nome concreto - política.

Política, essa, abordada e reproduzida como qualquer Máfia se tratasse (não é por menos que Rosi transfira para este quadro político-social, todos os lugares-comuns dos ditos “mob movies”), adaptando-os ao contexto que se atua. O ator norte-americano Rod Steiger é também uma dessas adaptações, emprestando corpo a um dos mais contraditórios anti-heróis do cinema italiano dos anos 60, Edoardo Nottola, um homem de negócios com raízes duvidosas ao crime organizado local que ascende na política conterrânea. Le Mani Sulla Città (As Mãos sobre a Cidade, como titulo traduzido) é o espelho de uma sociedade corrompida, observado por um olhar isente de esperança e de qualquer traço maniqueísta, tal como se pode constatar no último momento, onde o “mal” triunfa em consequência da inaptidão dos homens de bem, citando o estadista Edmund Burke.

Francesco Rosi invoca por vias de um neorrealismo acentuado em contrastes sociais gritantes, e por uma câmara interventiva, cínica e igualmente agressiva, um percurso quase e infernalmente descendente de uma cidade que ainda hoje é vista pelos piores motivos. A teia criminosa que se revela perante nós - meros mortais - é a tour de force de um dos mais corajosos e diretos trabalhos cinematográficos. Todavia, Le Mani Sulla Città não traz soluções, nem sequer respostas aos eternos tumores, apenas profere o aviso para as gerações futuras, porque este é acima de tudo, um filme inerentemente atual.