Tempo, porque é que não voltas atrás?
Aquilo que o filme identifica como Le Cose Belle (A Coisa Bela) é a juventude, aqui abordada como algo frágil mas ao mesmo tempo comum a todos nós. A flor de idade serve aqui como um contra-campo para o grande objectivo do documentário, ou seja, o de retratar a desilusão de uma geração sonhadora e convicta em vingar no futuro, mas cujo presente foi atropelado e obrigado a ceder à sobrevivência, tornando essa inocência arcaica em promessas incumpridas e juras burladas. São sonhos perdidos, olhados com tristeza e saudade, mas sobretudo confrontos intrínsecos com o grupo de quatro ex-crianças, gracejadas com uma felicidade irracional, mas convertidas em jovens adultos arrependidos e desesperançados.
A dupla Ferrente e Piperno segue pisadas semelhantes às do cineasta brasileiro, Eduardo Coutinho, falecido em Fevereiro do ano passado, o qual havia feito com igual perseverança e regulamentação com os elementos temporais no documentário Cabra Marcado para Morrer (1985). Nesta obra que adquiriu grande valor na cinematografia brasileira, Coutinho revisitava nos anos 80 uma família do Noroeste do Brasil que tentou filmar nos anos 60, em que foi impedido de continuar o projecto original em consequência do regime militar que o país vivia. Ou seja, este documentário "brinca" com as mesmas condições prescritas do tempo e da memória, e em épocas do hype de Boyhood, Le Cose Belle ostenta como uma confirmação da paciência como um estilo fílmico de produção.
Mas apesar do seu processo criativo, que por si realçará os atributos do filme enquanto obra de estudo etnográfico, Le Cose Belle apela diversas vezes à emoção, não só os dramas humanos contados sob um jeito nostálgico perdido, mas como música que funciona nessa linha unificada de passado e presente, com claro vislumbre para o futuro. As crianças de ontem, os adultos do amanhã, o espelho dessas duas faces lado-a-lado neste registo cinematográfico. Vale a pena espreitar as "coisas belas" da vida!
Filme visualizado na 8ª edição do 8 1/2 Festa do Cinema Italiano
Real.: Agostino Ferrente, Giovanni Piperno / Int.: Enzo Della Volpe, Fabio Rippa, Adele Serra, Silvana Sorbetti
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