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7.12.13

O predominante azul!

 

Primeiro de tudo esqueçam as polémicas envolta das extensas e explicitas cenas de sexo (que segundo as más línguas roçam a pornografia) e concentrem-se na própria simplicidade que La Vie d' Adèle, a quarta e triunfante obra de Abdellatif Kechiche, emane. Obtendo o mérito de conquistar a Palma de Ouro do ultimo Festival de Cannes, num ano em que o júri era presidido por Steven Spielberg, La Vie d'Adèle é baseado numa graphic novel de Julie Maroh, Le Bleu est une Couleur Chaude, a história de amor entre uma jovem subjugada aos seus dilemas emocionais, Adèle (Adèle Exarchopoulos), com uma estudante de Belas-Artes, a lésbica assumida de cabelo azul, Emma (Léa Seydoux). 

 

 

Este é um filme sobre relações afectivas, os pólos positivos e os negativos que irão gerar fervorosas paixões consumidas. Trata-se de um retrato sobre dois seres que desafiam as próprias barreiras das convenções sociais em prol do amor e da cumplicidade, uma relação que é preservadas mas não eterna perante a distancia intrínseca que se propaga e evidencia-se durante a narrativa. Ou seja,  Abdellatif Kechiche constrói uma obra de velho registo, o clássico "when boy meet girl" (neste caso "when girl meet girl") que está mais que vendido para o grande ecrã, onde o autor segue para lá do happy ending e provoca assim os próprios cânones cinematográficos, aproximando-o cada vez mais do realismo que não se limita ao estético e interpretativo, mas sim as componentes emocionais.

 

 

É que em pouco menos de três horas de duração o realizador tunisino consegue "pintar" um quadro cíclico, uma tragédia quotidiana crua, onde a câmara, maioritariamente feita através de grandes planos, parece "alimentar das emoções dos actores, dando uma invasão de intimidade entre espectador e personagem. Tal câmara responde a um testemunho que não procura o espectáculo mas sim decifrar os códigos pelo qual são baseados as afinidades afectuosas. Se o realizador é eficaz em tal procura? Diríamos antes que Kechiche é perfeito no papel de "voyeurista emocional", onde o seu modo operativo persistente, repetitivo e constantemente impertinente o torna num implacável produtor ou irradiador de sentimentos.

 

 

Sentimentos, esses, que parecem arrebatar todo o ecrã. Tudo isto não funcionaria na perfeição se La Vie d'Adèle não fosse envergada por duas actrizes dispostas a ser submetidas a tal experiência "kechichiana". São desempenhos poderosos, não no sentido mais estonteante de muitas das prestações oscarizadas de Hollywood, mas sim pela naturalidade que empregam, é difícil acreditar que ambas estão realmente a interpretar. Apesar de Léa Seydoux ser sedução em pessoa, é em Adèle Exarchopoulos que elogios caem em força, a jovem actriz consegue não só esboçar uma personagem carnal, pontuada por um desenvolvimento quase digno do registo literário, mas também pela "penetração" na essência do filme. Com isto quero dizer que derivado à forma directiva que Kechiche opera, o qual as suas obras são suportadas pelos seus actores que cedem a uma constante "tortura interpretativa", Exarchopoulos responde ao desafio exposto com uma espontaneidade de "cortar o fôlego".

 

 

La Vie d'Adèle é um filme belo, não no sentido figurativo nem concretamente visual, mas sim experiencial, incutindo e simulando na perfeição a história que muito bem poderia ser vivido por qualquer um, sem orientações sexuais, étnicas, religiosas e sociais. Um dos grandes do ano, onde as emoções continuam a ser o próprio espectáculo cinematográfico.    

 

Real.: Abdellatif Kechiche / Int.: Adèle Exarchopoulos, Léa Seydoux, Salim Kechiouche

 

10/10
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publicado por Hugo Gomes às 23:17
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3 comentários:
De Carolina MP a 26 de Dezembro de 2013 às 09:59
Mas que belo filme ... adorei 5*


De Gustavo a 22 de Fevereiro de 2014 às 19:48
É bom rapaz, mas não é MUITO bom. A cena de sexo é demasiado longa e explicita a meu ver


De PedRo a 11 de Março de 2015 às 21:44
Irmão, é bom mas não consigo concordar com o teu 10.


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