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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Koreeda: O japonês de primeira linha

Hugo Gomes, 22.11.18

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Numa conversa com o Hirokazu Koreeda, o confrontei com a atualidade do cinema nipónico, potência de outrora, hoje reduzido a todo um mercado subjugado à cultura Otaku e a protótipos de formatos ocidentais: “Como vê a industria de cinema no Japão atualmente?”. A resposta, foi de tudo lúcido, sem receio algum de represálias pelos seus conterrâneos.

Está constantemente a piorar. Algo que tenho percebido é que existem cada vez menos participantes japoneses em eventos como Cannes. Há cinquenta anos atrás existiam mais cineastas independentes e distribuidores que gostariam de trabalhar com eles. Atualmente, os grandes estúdios têm uma visão muito limitada e apostam quase exclusivamente no mercado interno. Olhando para o lado independente, encontramos uma vaga talentosa, mas também ela a decrescer devido a isso mesmo, o pouco interesse no mercado japonês. Julgo que o Japão está a tornar-se cada vez mais fechado e isso é algo que devemos impedir e atuar.”

Esta atitude advém do seu jeito observacional, Hirokazu Koreeda surgiu do documentário televisivo e sobretudo da reportagem, é hoje um dos cineastas mais valorizados do Cinema Japonês, se não o principal autor dessa mesma industria. Mas sua corrente enquanto observador do Mundo leva a que os seus filmes interpolam numa espécie de retrato/crítico social, o desvendar de uma Japão longe das vendidas canônes a ocidentais, e um cariz autoral com veia encriptada numa linguagem bastante europeia.

A minha conversa com o realizador decorreu numa das residenciais de Cannes, durante o Festival que o cineasta iria conquistar a tão Palma de Ouro, prémio que não fora atribuído a uma obra japonesa desde 1997, onde Shohei Imamura partilhou o lugar com o iraniano Abbas Kiarostami. Infelizmente, o filme de Kiarostami, O Sabor da Cereja, prevaleceu na memória dos cinéfilos de todo o Mundo, a Enguia de Imamura, restringiu a nichos, sem com isto desvalorizando o filme em si. Koreeda consagra-se então como o realizador de primeira linha, a Palma vem confirmar isso, porque a sua carreira cinematográfica, iniciada com Maboroshi (1995), tem tornar-se numa referência para com o panorama cinematográfico nipónico. De um lado, existe no seu cinema um invocar de gestos passados do Cinema do Japão, passando, evidentemente, pela sensibilidade de Yasujiro Ozu, e como o próprio sugere nesta mesma conversa, Mikio Naruse e Nagisa Oshima.

Mas ao mesmo tempo, Koreeda era o que faltava nessa indústria, uma compilação das tendências europeias, traduzindo-as num registo nacional. Por outras palavras, as histórias condensadas pelo realizador, que tão bem transpiram a sociedade japonesa, tendo como foco uma desconstrução da sua natureza e sociedade, proclamando o moderno ainda invisível para o Mundo afora, são de uma linguagem universal para com os demais. A prova encontrou-se no final da apresentação da sua última obra, o triunfante Shoplifters, o qual contexto teve a conversa acima referida. Projetado no Grand Lumiere Theatre, a sessão termina sobre um forte aplauso por parte do público. Em sala, a atriz australiana Cate Blanchett, presidente do júri desta seleção, não consegue esconder as suas lágrimas, a câmara capta o momento … o momento em que a mais importante membro dos jurados emociona perante um filme de uma realidade distante.

A partir deste momento, tendo arrecadado ótimas críticas e apresentando-se nas comités de críticos como o favorito ao prémio principal, o que veio a confirmar poucos dias depois, Koreeda sai-se vitorioso e sem o descanso algum parte para a sua primeiro obra internacional, onde irá trabalhar com atores como a francesa Catherine DeNeuve e o norte-americano Ethan Hawke, numa altura de holofote graças ao seu desempenho com First Reformed (de Paul Schradder).

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