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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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"Justa" decepção

Hugo Gomes, 23.12.25

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Ao ver “Justa”, por vários motivos, mas um em particular, fui conduzido a um episódio de “The Simpsons” em que o magnata da cidade, Mr. Burns, decide investir na indústria cinematográfica. Após a projecção pública da sua gerada obra e perante o embaraço testemunhado no grande ecrã, a personagem dirige-se ao seu fiel assistente e debita a frase fatal: “Fizemos vinte takes e este foi o melhor que saiu”. Teresa Villaverde não tem nada a provar. O seu círculo de fogo foi cumprido desde o momento em que um filme como “Os Mutantes” (1998) chegou até nós. O que se tem observado desde então é resistência, com um ou outro rasgo pontual. Mas com “Justa”, ao ver Filomena Cautela, uma actriz que exibe uma agressividade latente (e que bem!), a contracenar com uma “actriz-mirim” (aproveitando o termo dos nossos irmãos do outro lado do Atlântico), num desempenho que arrasta a cena, e tudo o resto, para o lamaçal, surge-me a pergunta inevitável: “Teresa, foi este o melhor take?

Mais: foi isto o melhor que se conseguiu extrair de um tema desta natureza? Uma espécie de pornografia da miséria interior, dos traumas, das feridas abertas, das desilusões sociais e políticas retiradas da tragédia de Pedrógão Grande? Foi para isto que se convocou um actor como Ricardo Vidal, vítima da sua própria fatalidade (um acidente de viação em 2009), para o inserir num outro fado que não o seu, ainda que as cicatrizes se enquadrem cruelmente no dispositivo? Vidal não foi escolhido pelas suas capacidades interpretativas; foi seleccionado porque está queimado. E o que “Justa” faz, ao atirá-lo para o ecrã sem personagem, é exactamente isso: instrumentalizar a sua imagem ao serviço do miserabilismo.

É certo que a câmara tem os seus momentos: fantasmagorias, espectros de portugalidade, ecos de uma ruralidade mágica. Mas são clichés lavados e deslavados, revisitados sem verdadeira tensão crítica. De resto, o gesto é abjecto. Onde estão os mesmos que, noutras ocasiões, apontam “travellings de Kapò” sempre que surge um provocateur ou um sádico de ocasião? Onde está a crítica quando ela é necessária, quando “doa a quem doer”? O silêncio é ensurdecedor.

Enfim, Teresa, estás perdoada. A tua carreira fala por si: “Idade Maior” (1991), “Três Irmãos” (1994), o já referido “Mutantes”, o facto de nunca teres sido acolhida de braços abertos pelo cânone do cinema português. Confesso que te perdoo a utilização barata de Betty Faria, a Anabela Moreira atirada aos leões, o ruralismo místico, a criança que não convence (não por culpa sua, mas pela evidente ausência de direcção). Perdoo tudo isso. Mas perdoa-me por não alinhar no uníssono. Não quero. Não me comprometo com esta aproximação. “Justa” é porno-miséria humana. Não conseguimos fugir a isso.

Que desilusão!