
A caminhar sobre fantasmas!
A Polónia foi um dos países mais castigados pela 2ª Guerra Mundial, a invasão e soberania ideológica dos alemães nazis e dos soviéticos ao serviço de Estaline deixaram marcas profundas enquanto nação. Marcas essas, que o tempo tentou ignorar, mas nunca apagar. Talvez seja por isso que encontramos algo de verdadeiramente profundo numa das citações de uma das personagens de Ida, a nova obra de Pawel Pawlikowski, "A viagem é longa e até lá fico sóbria".
Com o percurso emocional e traumático, as perdas e a desfragmentação social fez com que a Polónia chegasse a um ponto em que chorar pelos seus mortos fosse escusado, um gesto que simplesmente não adianta, mas sim o de esquecer e seguir em frente, viver as coisas habituais que alguém diz entretanto e que revela tratasse da "A Vida". Ida é um viagem pelos fantasmas de outrora e das cicatrizes do presente, porém tudo decorre de maneira anti-hollywoodesca, a emoção não é algo que se desperta ou que se afasta da narrativa, mas sim uma aura que motiva os seus personagens a "caminhar" por este campo "encharcado" de memórias, ocultadas sob um cenário inóspito e desprezado. Contudo essas mesmas emoções expostas pela fita respeitam as protecções sentimentais do seu grupo de personagens, a homónima Ida, uma órfã aspirante a freira que descobre as suas raízes judaicas e que se lança juntamente com a sua tia, Wanda (Agata Kulesza) de passado duvidoso, em busca da herança deixada pelos seus entes falecidos, por outras palavras, as histórias silenciadas pelos mortos sob repouso atormentado.
Essa mesma demanda pela identidade inerente é um percurso pelo vazio emocional, mas sem isso referir que Ida seja de uma vacuidade banal, nada disso, existe um trauma interior, existe desejo em ser tornar-se num poço de sentimentos revoltantes mas sentenciado em ocultar sob essa capa de frieza. Aliás para conhecer intimamente a obra de Pawel Pawlikowski, basta venerar a sua fotografia em tons preto-e-branco, mas tão delicada sob as sombras e luz e nas suaves feições da sua protagonista (a estreante Agata Trzebuchowska). Um trabalho técnico que resulta numa psicanálise visual, um perfil de um país avassalado, “violentado” e por fim, deixado à sua mercê pelos ecos dos seus próprios e fantasmagóricos traumas.
Ida é um filme diatómico, um projecto amargurado e melancolicamente simbólico que nenhum país gostaria de ostentar na sua filmografia, mas que por um lado este é um trabalho de união que a Polónia tão bem concretizou. Uma jornada ao passado isentes de glória e drama digno hollywoodesco, existem poucos filmes assim.
Real.: Pawel Pawlikowski / Int.: Agata Kulesza, Agata Trzebuchowska, Dawid Ogrodnik
Arquivo de Criticas
Outras Categorias
Sites de Cinema
CineCartaz Publico