Gojira desfila em Hollywood!

He's not some monster trying to evade you. He's just an animal. If you find what he wants, then he'll come to you.
A tentativa de "americanizar" o nipónico Gojira, internacionalmente intitulado Godzilla, já vem de muito detrás, precisamente na década de 80, com o realizador Steve Miner ("Lake Placid", "Friday the 13th Part II") anexado a um projeto com permissão dos estúdios Toho [os detentores dos direitos da franquia]. Todavia, a ideia perdeu força e os ditos direitos do popular kaiju "morreram" em 1983 (paz à sua alma!), até serem reavivados em meados dos anos 90, com Roland Emmerich saído do êxito mundial de "Independence Day". Apontado como o homem ideal para tal imigração, reza a história que só desejava produzir um filme sobre asteroides e toda a destruição que isso lhe acarreta, só que a tentação da potencialidade comercial de um objeto com nome definido nos mercados cinematográficos internacionais o levou a isto …
Após a luz verde da Toho, Emmerich, em conjunto com Dean Devlin [argumentista], e Patrick Tatopoulos [coordenador de efeitos visuais], auferem um novo visual à criatura. Como a sequela de "Jurassic Park" - "The Lost World" - de Steven Spielberg, batia recordes de bilheteira, o novo Godzilla capitalizou a “febre cretácea” e assumiu contornos pré-históricos. Deve-se sublinhar que a Toho não aprovou totalmente o "desenho", o que não impediu de atribuírem carta branca aos estúdios Sony para seguirem avante a sua própria versão, neste caso, poderíamos ser piegas ao ponto de insinuar que, sem a devida bênção, o "Godzilla" de Emmerich automaticamente teve tudo para falhar (e falhou como se bem eternizou), mas o que está em causa não é a fidelidade à matéria-prima, e sim a própria visão de espectáculo hollywoodiano que o realizador contrai neste distorcido "mal-entendido", uma incursão pueril e inócua de uma metáfora fílmica e nacionalista.
Há mais aspirações do que inspirações aqui. "Godzilla" funciona como um filme regido pelos códigos do blockbuster integral, minado de lugares-comuns e estereótipos generalizados de uma Hollywood ainda antes do incidente ocorrido em 11 de Setembro, por isso, não esperem nada de abrangente às fragilidades da segurança dos EUA. Contudo, "Godzilla" foge das influências "trash" e da, muita, série B herdado pela matéria-prima (de uma forma ou de outra também de "Independence Day") e auto-promove-se na seriedade do seu enredo, pausando pelo humor corriqueiro. Tudo aqui exposto é mais do mesmo no que se refere ao suco concentrado hollywoodesco, e em consequência disso e talvez usufruindo da expressão popular - Emmerich compôs um filme “que se vê e esquece no momento seguinte”. Um gigante desajeitado não só em termos físicos, como também narrativos, ofuscando personagens e as suas tramas que a produção teima (ou sugere) em desenvolver, mesmo face à anorexia da sua exploração.

Por fim, uma reviravolta triste e fermentada no "déjà vu" (como já havia dito, este "Godzilla" tenta ser mais dinossauro spielberguiano do que monstro da Toho), que para todos os efeitos arrasta o óbvio em sofrimento na previsibilidade. Nada surpreende aqui: são efeitos visuais e sonoros (apostado na altura como uma gigantesco passo em frente, hoje obsoleto e poeirento) ao serviço de uma produção munida por um elenco chamativo, que por sua vez é movido por boa vontade... e pelo cheque (Matthew Broderick, Hank Azaria e Jean Reno em modo Jean Reno). Um filme "maldito" cujas sequelas foram avassaladoras para o próprio realizador - o projeto dos seus sonhos gerou nesse mesmo ano dois filmes, ambos grandes sucessos ("Deep Impact" e "Armageddon") e adivinhem? Nenhum deles teve mão de Emmerich.
Porém, o filme de Emmerich guarda um pormenor deveras curioso: a referência satírica aos críticos Roger Ebert, retratado como o mayor de Nova Iorque (Michael Lerner) e a sua campanha "thumbs up", e Gene Siskel, como fruto do rancor de Emmerich às críticas negativas dadas aos seus filmes anteriores. Por fim, como "happy ending" a esta versão americanizada e "formatada", os estúdios Toho assumiram-na como um filme à parte da mitologia "Godzilla" e até retiraram-lhe o "God" do nome, ficando apenas "Zilla", sendo que mais tarde tal modelo serviu como um dos muitos inimigos do "monstro" original em "Godzilla: Final Wars" de Ryûhei Kitamura (2004). Marginalizado para a vida!