Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Fui visitar a minha filha a Marrocos ... e só o Inferno é que vi!

Hugo Gomes, 30.07.25

vanidad_sirat_2.webp

No meio de nenhures, o deserto propriamente dito, para lá de Marrocos, terra incógnita, o centro, o nada, e, mesmo assim, a comunhão de gente de todas as partes do globo, reunindo-se, centrando-se na música que os recolhe ao primitivismo. O techno faz-se ouvir sem restrições; não existem cidades a quilómetros e quilómetros de distância, nem outras paisagens além das areias, dunas eternas. Os estupefacientes, do sintético ao orgânico, consumidos, penetram veias adentro. Sente-se a ‘batida’. Dançam porque são humanos, mas é nas suas rotações que deixam de o ser, instantaneamente, seres celestiais.

No meio da rave, dois intrusos esgueiram-se entre o colectivo. Procuram algo, ou melhor, alguém, uma peça perdida da sua estrutura familiar. A festa termina abruptamente. Por mais festivo que seja, o mundo ao redor é outro: ameaçado e ameaçador. Um conflito intermete-se, uma guerra civil, ou quem sabe, Mundial. Segue-se a peregrinação para um outro oásis, a promessa de uma nova rave, de uma nova dança, talvez, quem sabe, a última antes do Apocalipse.

Para Oliver Laxe, a resistência do mundo é a capacidade de se fazer sentir a experiência, sendo a viagem de “Sirât” (essa ponte que liga o vivo ao Inferno segundo o Corão), o crucial do seu fim de jornada. Um apocalipse pré, durante e pós, onde a peregrinação messiânica pelo deserto vinca a terra prometida — Mauritânia, dizem eles — num primitivismo sensorial. A música está lá, miragem auditiva que os conecta com o júbilo das suas tentações, e, por outro lado, a família, a de ocasião e a sanguínea, prontas a serem sacrificadas porque o mundo assim o quis. Na rádio, fala-se do bélico como sermão; uma metamorfose geopolítica aguarda-lhes o regresso à “normalidade”, à domesticação social… Veremos.

Sirât” é esse complot de simbolismos de fim do mundo, em busca da última festa antes que tudo “vá para o raio que o parta”. Em tons bíblicos, do sacrifício à crença no vazio, as forças divinas já não se inscrevem no niilismo insuportável da nossa existência. Laxe espelha a Humanidade no seu melhor e no mais degradante desespero, porque o mundo não lhes pertence; finge pertencer-lhes, saturado dos seus devaneios e da sua autodestruição. São pragas, só que não sabem. Julgam-se entre os dignos e os sapientes levados da breca para estabelecer uma ordem nas “coisas”.

910b822edcb01fd0c074ac11e3c51b03.webp

Entre os melhores exemplares do Fim do Mundo, daqueles que Hollywood não sequestrou na sua espectacularidade, “Sirât” conserva os signos de um término certeiro: a escassez, a perda, a negação com o desespero, o striptease humanizador até se reduzir ao animalesco, passivo perante o próprio destino. E areia, e mais areia, nas paisagens inóspitas, de horizontes sem fim, onde o esoterismo — palavra que nada assusta em Laxe — é reconhecido como Verbo. Até parece que o realizador galego viu “Gerry” de Gus Van Sant, reduziu as estratagemas narrativas e os aristotélicos enquanto esquadria, ficou-se pelos movimentos, pelo cansaço transmissível, pela dominância do cenário frente àquelas figuras martirológicas. Há uma força no deserto (muitos filmes já o transmitiram), o Nada como divindade aprisionada naquelas secas, e “Sirât” não foge à regra.

Com “Mimosas” (2016), a sua primeira longa, Laxe passeou pelos Atlas, o filme era um filme, mas foi também um estudo de terreno. Depois de um intervalo com “O Que Arde (2019), nos incendiários e na redução ao Nada (mais uma vez), captou o espírito selvagem e destrutivo em algo que se pode entender como cinza. Tudo é reduzido a tal. Em “Sirât”, a cinza é para onde os corpos se transformam. Da complexidade à simplicidade com passagem na abstracção (Laxe é o novo rei da abstracção cinematográfica). Como o filme: simples na forma, porque é exactamente isso em que teremos de acreditar - o fim do mundo será o processo mais elementar possível.