Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

From Here to Eternity: tudo em redor de um beijo

Hugo Gomes, 15.06.14

from-here-to-eternity-slide1.jpg

Momento crucial para Hollywood: um beijo intenso nas areias havaianas entre o galã Burt Lancaster e Deborah Kerr corou os sensores de censura e remeteu ao público uma ousadia sofisticada nunca vista no “correto” cinema norte-americano. Sim, um simples beijo que hoje em dia ficaria estampado no politicamente correto foi à sessenta anos uma viragem da Idade de Ouro de Hollywood para o início da sua maturidade. O filme detentor de tal irreverencia é From Here to Eternity (Até à Eternidade), de Fred Zinnemann.

O que prometia ser um “dramalhão” que englobava os códigos e condutas moralistas do panfleto militarista durante a Guerra do Pacifico, se converteu pelas mãos de um “infame” realizador e de um autor traumatizado (James Jones, o escritor original de From Here to Eternity, afirmou ter elaborado a obra em prol das suas memórias e experiências) num estilhaçado espelho de uma sociedade em transição.

O espírito norte-americano com todas as suas virtudes e defeitos que o caracterizam encontra-se efetivamente representado no seio desta comunidade militar, composta por homens e dilacerada pelas mulheres. Contudo, mesmo sendo um sinonimo de ousadia cinematográfica no seu tempo de lançamento, From Here to Eternity foi mesmo assim abatido pela censura e pela leveza em favor dos valores morais que tanto se prezava, o filme de Zinnemann aborda temas como corrupção, adultério e prostituição, mas estas duas ultimas são retratadas de um forma algo fabulista, aliás evidenciando em demasia de um dos “calcanhares de Aquiles” da Hollywood classicista (ainda hoje esse “mundo cinematográfico” não contornou na totalidade tal fator) o seu desprezo pelas personagens femininas. Deborah Kerr e Donna Reed são respetivamente esposa adúltera e prostituta, porém, só o título parece confirmar tal essência personificada, visto que após minutos de atuação, as máscaras de ambas desabam, transformando-as em simples estereótipos femininos, incuráveis e tolas românticas como Hollywood tanto adora.

É nesse aspeto que From Here to Eternity não consegue fazer jus ao estatuto de obra-prima, e é pena sabendo que de um jeito ou de outro a obra galardoada com oito Óscares, incluindo o de Melhor Filme, seja um marco único na História do Cinema. Narrativamente sedutor e complexo em transmitir a relação entre os militares “encurralados” naquela base pré-Pearl Harbor, munido de interpretações fortes de Burt Lancaster, Montgomery Clift e até de Frank Sinatra, cuja sua carreira foi resgatada graças ao seu empenho em From Here to Eternity (o Óscar de Melhor Ator Secundário foi o seu louvor de “bom comportamento” e de seguida com desempenhos memoráveis como Some Came Running ou de The Manchurian Candidate), o filme de Fred Zinnemann pode não ter envelhecido como pretendíamos mas acima de tudo continua a ser um clássico como nenhum outro fora.

Nobody ever lies about being lonely.”