"Fracassei até no Amor"

Antes de seguirmos pelas causas pessoais que levaram à “fabricação” deste documento, deparamos com a raiz inspiracional na obra de Marco Bellocchio, um realizador promissor nos anos 60 (a primeira longa-metragem “I pugni in tasca”, em 1965, conquistou um prémio em Locarno e o amor de Luis Buñuel), hoje declarado como “maestro” do cinema italiano, simplesmente pela ausência que esta cinematografia tem revelado nos últimos tempos. Trata-se de um cinema próprio que veio beber das suas experiências e esferas emocionais, a mãe de um lado, o fascismo do outro e o seu irmão - Camillo Bellocchio - gémeo, precocemente desaparecido, ou, como o filme revela-se no orbitar da sua ausência, um suicídio que veio abalroar a extensa família Bellocchio [em ‘68].
“Marx Pode Esperar” / “Marx può aspettare”, o que indicava ser uma autocitação, um extrato do seu “Gli occhi, la bocca” (1982), não passa de uma memória, uma inesquecível resposta do seu “fraterno” perante a fervorosidade política que se vivia. Foi o título sugerido e aceite, como poderia ser outro, que na memória do espectador perante este retrato, na não-leitura da desparecida carta de suicídio - “Fracassei até no Amor” - soaria como o indicado em tributo à existência tormentada da figura. Desta feita, pego, embrulho e entrego a Marco (pobre Marco, que tem que consolidar essa tragédia na sua vida), um bilhete para o que viria depois, um remorso, uma frustração, uma impotência, até porque ninguém desconfiava dos medos de Camillo, da sua falta de ambição anexada à sua perspectiva derrotista para com a vida. Marco Bellocchio, como o próprio assume, usufruiu do estado do seu irmão para inspirar a sua filmografia, negando um espaço para com o seu consanguíneo pudesse “expandir”, o “mea culpa” que o realizador aponta neste documentário, pessoal, longe do perfeito e performativo.
É a sua carta, não póstuma, mas eventualmente entregue ao espírito, ou lá que seja, e nela reside o seu perdão, a sua epifania. Bellochio atingiu o estatuto de “maestro” cinematográfico (como havia dito), não existe mais nada a alcançar, sendo o momento ideal para invocar e apaziguar os seus demónios. “Marx Pode Esperar”, talvez, seja o melhor trabalho que o realizador elaborou em anos, tudo, porque de uma maneira ou de outra, regressa aos seus “esqueletos”, ao seu intimismo, ao memorialismo e às sombras que o cercam.
É um filme pessoal, sim senhor, mas até que ponto julgamos que o Cinema é obrigatoriamente informal?