Ferrovias pelo destino do "Cinema Puro"

Nestas demandas pelo absolutismo da definição “o que é o Cinema”, deparo com um registo memorial, a preservação de imagens em uma frágil cápsula do tempo. Nessas mesmas, reúnem pessoas, culturas, lugares e arquitetura, e acima disso tudo, um tempo … um específico tempo.
No caso de “The Wonder Ring” (1955), filme-encomenda de Stan Brakhage e Joseph Cornell, 6 minutos concebidos para apelo de registar a estrutura do comboio da Terceira Avenida de Nova Iorque (ligando Manhattan a Bronx), construído entre 1875 a 1878, antes da sua eventual demolição. Contudo, a proposta é ainda mais saudosista do que um mera esquematização, pedagogia ou imagens estáticas para fins acadêmicos ou de trivialidades informativas, o convite dos seus “maquinistas” foi a de uma última viagem, de uma última paragem e de uma última vista pela cidade banhada pelo sol frio, acompanhada pelas faces de quem normalizou a sua rotina como intemporal carrasco.
O filme é sensorial, o espectador em poucos minutos simula a sua experiência nos caminhos-de-ferro suspensas, porém, outro elemento do Cinema é subtilmente colocado à prova. Toda a viagem de Brakhage e Cornell é amontoada por vidros, vidraças, metais e chapas organizados, madeiras intrusivas e reflexos sobrepostos que os impede de atingir um olhar a nu pelas imagens, uma contradição visto que os próprios, em exercício do seu cinema, operam com uma lente que capta essa mini-odisseia. Mas a câmara, essa, anseia pela pureza do seu olhar, um esforço hercúleo e em vão, visto que a objetiva é poluída pelo seu redor. É bem verdade que Brakhage, experimentalista de segunda fornalha e underground de primeira, praticamente confrontou a sua teoria de um “cinema puro” no descarte do objeto que sempre assumimos como dissociável – a câmara – porém, tal é outra viagem.