Quinta-feira, 1 de Março de 2018

Sharunas_portret01.jpg

Poderia ser uma descida ao Inferno em jeito de Dante, mas não. Frost (Geada), o novo filme do lituano Sharunas Bartas, é o encontro com uma Ucrânia pós-Maidan, a revolução de 2014 que indiciava um novo capítulo na História desse país, mas cujas promessas não chegaram a se cumprir. Aqui, somos confrontados com um cenário devastado em que o medo impera e a hipocrisia dos protegidos mistura-se com um ativismo sem resolução, não faltando ainda militares forçados a combater na sua pátria na forma de uma resistência.

 

Estreado na última Quinzena de RealizadoresFrost chega por fim aos cinemas portugueses. Um filme frio, calculista e delicado que tenta incentivar o debate no espectador acima de tecer a sua própria ideologia. O Cinematograficamente Falando ... falou com o realizador sobre alguns pontos fulcrais deste projeto.

 

Nos primeiros minutos do filme, o protagonista procura o termo “Maidan” na internet, o qual o levará a algumas imagens do homónimo documentário de Serge Loznitsa. De certa maneira, Frost é uma (des)romantização da romantização atribuída à insurreição de Kiev?

 

Se estou certo, está a presumir que Frost desmistifica a revolta decorrida em Kiev? O dito romance nesse tipo de eventos só pode ser produto de imaginação. Não existe romantização ali.

 

frost_28129.jpg

 

Jornalismo não é mais uma vocação, tornou-se numa oportunidade”. Aqui temos um comentário sobre a própria condição do jornalismo de Guerra assim como do chamado jornalismo participativo, onde cada um pode criar a sua própria informação. A revolução de Kiev conduziu a essa “fabricação informativa”? E como esta citação exemplifica a gradual transformação do protagonista?

 

O jornalismo que opera nesses chamados “lugares críticos” é, obviamente, diferente. Uns resistem e arriscam as suas vidas para nos mostrar a realidade para o resto do Mundo, outros convertem-se em “vendedores desse material”, de uma maneira algo cínica. O protagonista nada sabe daquilo que presencia num país que não é o seu, a Ucrânia. Por isso, ele terá que escolher no que quer acreditar.

 

Se o protagonista tende em apresentar tendências jornalísticas ao longo da narrativa, é verdade que esta jornada intrínseca entra em paralelismo com o seu trabalho enquanto realizador. Será Frost a sua peça ficcional de jornalismo?

 

Não. Não, consigo encontrar um paralelo aqui. Julgo que não seria correto definir Frost como uma peça ficcional de jornalismo. É somente uma jornada à Ucrânia devastada.

 

Nos seus filmes, é clara existência de uma delicadeza estética. Em Frost é sugerido um abandono desse mesma “delicadeza” em prol de um comentário sociopolítico. Tem receio que por momentos o seu filme seja propicio a causas propagandistas?

 

Não acredito que este filme possa servir para tais causas, até porque em Frost nunca faço de uma declaração direta. Nunca me posiciono em nenhum lado concreto.

 

frost.jpg

 

Curiosamente, Frost é um dos poucos filmes que vimos recentemente em que não existe uma “demonização” cega  do papel do militar. Contudo, as questões de patriotismo encontram-se inseridos nos seus discursos.

 

A Guerra é em todos os cenário um demónio, no qual se reflete o pior da raça humana. Conquistamos, destruímos e detemos (à força) melhores territórios, etc. Infelizmente, quando olhamos para a História deparamos com uma guerra prolongada. Nós compreendemos esses “demónios” e tentamos eliminá-los. O que não sei é até quando isso acontecerá definitivamente.

 

Como decorreu o casting?

 

Como sempre, dispensamos muito tempo a procurar atores e não-atores, que queiram trabalhar nas ditas condições. Muitos que integram o filme são “não profissionais”. Nós fazemos sempre ocasting “on the road” (durante a jornada), até porque atuar é no geral expressar sentimentos ou emoções para outra pessoa, para outras sociedades. Não é nada de sobrenatural para todos nós.

 

Quanto ao envolvimento de Vanessa Paradis no projeto?

 

Vanessa é para além de uma excelente pessoa, uma ótima atriz, que foi capaz de improvisar e sentir as diferentes situações que ela experienciou anteriormente, e ao mesmo tempo ser capaz de se envolver neste processo de atuação com tamanha devoção. Ela foi o coração deste projeto.

 

20915096_QkfiS.jpeg

 

Esta jornada por uma Ucrânia dividida e constantemente ameaçada enriqueceu-lhe como pessoa da mesma forma como realizador? Como vê esse atual cenário e como o Cinema poderá ser uma ferramenta na revelação das mesmas?

 

É certo que existe uma  guerra não declarada a acontecer na Ucrânia. A situação é crítica e, obviamente, tal experiência enriqueceu-me. Cada dia, cada mês, isso incutia algo no meu coração. O Cinema é diverso, como sabemos. Existem filmes analíticos, documentários, alguns que levantam problemas, outros questões do panorama social e depois os que procuram respostas. Nos meus filmes, o que tento fazer é desvendar experiências na vida de alguém. Somente isso. 

 

Quanto a novos projetos?

 

Sinceramente, eu nunca falo de projetos em estado tão precoce. Peço desculpas.

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 20:08
link do post | partilhar

Comentar:
De
 
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres



Copiar caracteres

 



sobre mim
pesquisar
 
arquivos
2019:

 J F M A M J J A S O N D


2018:

 J F M A M J J A S O N D


2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


recentemente

O pão de cada dia obriga ...

Critica - "Nós" não ficam...

Primeiras impressões: Us

Os patetas do costume

O meu Cinema é feito de M...

Maquilhagem americanizada...

Crítica: Marvel no nome, ...

Críticas: uma portuguesa,...

Primeiras reacções: Capta...

E os Óscares?

últ. comentários
Título do post muito criativo.
Legal o tema do post. Parabéns.
Aguardando. Blog bem legal!
Um luxo de actores num filme de lixo, repito LIXO....
Gostei muito da crónica. Vou acompanhar o seu blog...
Takes
10/10 - Magnífico
9/10 - Imprescindível
8/10 - Bom
7/10 - Interessante
6/10 - Razoável
5/10 - Medíocre
4/10 - Muito Fraco
3/10 - Mau
2/10 - Péssimo
1/10 - De Fugir
0/10 - Nulidade
stats counter
HTML Hit Counter
counter
links
mais comentados
30 comentários
25 comentários
20 comentários
12511335_1084470088250815_732384524_o
subscrever feeds
SAPO Blogs