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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Eastwood faz sermão, mas não lhe chamem "velho"

Hugo Gomes, 01.01.20

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A tentação de reduzir Clint Eastwood a um “velho”, trazendo à memória o episódio da conversa com a cadeira vazia de Obama durante a campanha presidencial de 2012 ou os filmes de teor patriota que têm, sobretudo, conquistado uma facção mais conservadora e militarista, é um ato de pseudo-sobrancelharia intelectual. Mais que nunca, o veterano cineasta de 89 anos aborda a nossa atualidade, desafiando-nos a olhar com outros olhos não apenas as nossas jornadas morais, políticas e sociais. Eastwood é um homem disposto a dar o peito às balas pelos seus heróis americanos e a defendê-los contra as tiradas democratas e de um Mundo atento que se autocensura. Isto não serve para perdoar a falta de redenção que um filme como “American Sniper” ou a miopia da narrativa global de um “The 15:17 to Paris”, mas também não nos importamos de também servir de alvo perante aqueles que desejam encostá-lo a um canto pelo seu posicionamento político.

Em “Richard Jewell”, o cineasta presta-se ao mesmo dispositivo utilizado num  “Flags of our Fathers” ou “Sully” para desconstruir a imagem heroica e lavá-la perante a turbulenta relação entre esse arquétipo e uma sociedade desconfiada, inquisidora e acusadora. A história e resistência moral de Richard Jewell dialoga diretamente com a nossa atualidade, mas sem a imperiosa urgência que é hoje requisitada. Basta ver aquilo que compõe a figura, o mesmo que levou o FBI a catalogá-lo como o suspeito número 1 de um atentado terrorista: aquele perfil correspondente a um “loner”. Interpretado por Paul Walter Hauser (poderá ser uma das surpresas nas nomeações aos Óscares, aposta nossa), o “herói” é tudo aquilo que se afasta da imagem tradicionalmente heroica e, ao mesmo tempo, das solicitações desta “Nova Hollywood”, e perversamente, consolida os elementos estereótipos de um "trumpista": branco, amante de armas, militarista, patriota e mais preocupado em provar a sua heterossexualidade do que a sua inocência.

Contra os princípios hoje estabelecidos (e porque não generalizados), ele é o mártir e, sem escapatória, a testemunha de um facto real que Eastwood invoca para abordar os tempos em que a exigência de sangue se sobrepõe aos tempos da Justiça. É aqui que entramos num território mais cinzento e minado do filme, com a personagem de Olivia Wilde, uma jornalista que consegue o "furo" que automaticamente se converte na crucificação de Jewell: Eastwood transforma-a num exemplo, revestindo-a de uma má índole questionável nos tempos do #MeToo e pouca vista no cinema de hoje.

A certo ponto, existe um diálogo de confrontação entre o advogado de Jewell (Sam Rockwell, a caminho da terceira nomeação consecutiva para as estatuetas?) e a repórter “metediça” sobre o seu papel neste processo de "inquisição". Tendo em conta o contexto atual, Eastwood não é o "velho" que discursa para fantasmas, mas alguém a fazer um sermão camuflado para os "media" e a sua constante manipulação, não fosse ele um republicano assumido que vê cada vez mais os meios de comunicação a tomar lados politizados e ideológicos. Mesmo assim, a crítica é de pavio curto: fica a sensação de que Eastwood extrai a moralidade deste caso para castrar a dimensão que o jornalismo tem, o do “Quarto Poder”, que acusa de ser corrompido pelas amoralidades capitalistas.

Para além de tudo isto, nesta sua demanda pelo resgate de um incompreendido e difamado herói norte-americano, “Richard Jewell” mostra a intenção de manter vivo no cinema um classicismo técnico e narrativo, apoiado intencionalmente nas emoções destas personagens e os efeitos gravitacionais do enredo. Pelo meio, há deliciosos momentos de execução que provam que o realizador está longe do selo de “velhote”, desde o entusiasmo com que filma a dança da macarena (de forma a localizar a ação nos anos 90) ou a montagem paralela e retalhada com que coloca, lado-a-lado, a investigação e o passo de um maratonista.

Concorde-se ou não se concorde com o que se vê, um novo filme de Eastwood é, e sempre será, uma celebração cinematográfica.