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3.2.13

Por um punhado de Tarantinos!

 

Muito já foi escrito e dito sobre o novo filme de Quentin Tarantino, quer pelo êxito que esta tem obtido em todo o Mundo quer pelas polémicas geradas por onde passa. Na verdade e como parece ser regra uma nova fita do realizador de Pulp Fiction é um evento cinematográfico que não deve ser mesurado e nesta nova estância o autor conhecido pelo barroquismo e referencias por segundo, transporta o espectador para o seu próprio mundo cinematográfico do western. Django Unchained prometia ser uma visão altamente tarantinesca dos próprios cânones do género, a começar pelo titulo que homenageia uma das personagens estrelares do western spaghetti, o Django de Franco Nero no filme homónimo de Sergio Corbucci em 1966, o qual Tarantino parece não esquecer desse seu marco de partida, a começar pela musica que abre o filme e na fabulosa sequencia que a personagem de Jamie Fox se confronta com um cameo vibrante Nero sobre o nome que partilham e a não pronuncia do “D”. Enfim, apesar das referências que o cineasta oferece deliciosamente de bandeja, Django Unchained inverte a tendência de pura paródia que esboça um argumento que envolve os ingredientes mais populares de Tarantino com os focos menos explorados do género, a escravatura e a emancipação do afro-americano, tudo isto resolvido num argumento inteligente, entusiasmante e detalhado com momentos incríveis e plenos que demonstram não só o conhecimento do autor ao ponto de referência como também da generalidade dos temas.

 

 

A escravatura representada em Django Unchained tem arrecadado críticas na comunidade afro-americana que acusa Tarantino de a interpretar um tema sério de forma delirante e quase satírica. Polémica à parte, o “western southern” o qual o cineasta apelidou á sua obra, nos remete á história de Django (Jamie Foxx), um escravo castigado e separado da sua amada que é resgatado e libertado por Dr. King Schultz (Christoph Waltz), um astuto caçador de recompensas o qual une ao nosso herói a fim de capturar um trio de criminosos foragidos. Depois do trabalho feito, Django propõe a Schultz um plano para salvar a sua amada que se encontra escravizada na Candy Land, fazenda do temido e sádico Calvin Candie.

 


 

Como já é habitual nos filmes de Tarantino, Django Unchained reúne excelentes interpretações do seu elenco, porém a mais notável e infelizmente a maior ausência nas nomeações dos Óscares deste ano é o desempenho de Leonardo DiCaprio como o infame e psicótico vilão. O actor presta corpo e alma a uma das personagens mais odiáveis da fita, o estereotipo perfeito de um comerciante de escravos, porém DiCaprio é perfeito na entrega do seu discurso em defesa da escravatura, sequência essa que aufere um dos momentos altos do filme como até mesmo da carreira do actor. Durante a cena o actor lesiona na mão, um ferimento que teve que levar pontos, contudo DiCaprio termina a sequência mesmo pingando sangue em toda ela, uma marca de um grande actor, mesmo sob condições adversas á que completar a actuação. Jamie Foxx encontra-se formidável como herói de acção, o perfeito vingador, Christoph Waltz como já é habitual, é um detentor carisma inesgotável e Samuel L. Jackson num dos seus melhores desempenhos recentes, naquele que ele próprio caracteriza como o “mais desprezível negro da Historia do Cinema”.  

 

 

Django Unchained resume-se à maior produção de Quentin Tarantino de toda a sua carreira e em contraste com a mesma é a sua obra mais séria. Obviamente, deparamos com diversas cenas hilariantes, submetidas à pressão na narrativa mas que condizem na perfeição do seu tom algo satírico, uma delas é por exemplo a divertidíssima caricatura da Klux Klux Klan, uma espécie de contradição ao clássico mas envolventemente polémico The Birth of the Nation de D. W. Griffith. Mas de resto, Tarantino constrói uma dita história de vingança sem paragens para moralidades, nem pontos de reflexão, expressando a sua repudia pelos seus próprios vilões e servi-los para um intenso julgamento final, onde muitos acusam veneração à violência gráfica, na minha humilde opinião uma glorificação da mesma, que resulta em sequências de tiroteio exageradamente sanguinárias mas que transmitem uma beleza sádica indiscutível como um quadro de Picasso se tratasse. Pode-se amar ou odiar o cineasta, mas ninguém nega que é um dos autores mais singulares e únicos para transmitir a violência no grande ecrã de um forma distinta e sim, bela.   

 

 

Talvez o seu defeito mais saliente seja mesmo a sua duração, demasiado para o pouco enredo que possui, mas nisso também confirma a audácia de Tarantino em continuar as suas cenas e na transmissão dos seus diálogos sem cortes na mente. São três horas de puro entretenimento tarantinesco, com as suas grandes valias marcas artísticas mas com uma maduração mais acrescentada na sua posse. Uma narrativa envolvente onde invoca a lenda de Siegfried com os próprios fantasmas dos EUA. Arrisco-me a afirmar que Django Unchained poderá muito ser a obra-prima de Tarantino, no caso se tiver correcto ou não, só o tempo dirá. Arrebatador, como foi bom esperar por Django.

 

“Django. The D is silent.”

 

Real.: Quentin Tarantino / Int.:  Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Kerry Washington, Samuel L. Jackson

 


 

10/10
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publicado por Hugo Gomes às 17:08
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2 comentários:
De jc a 4 de Fevereiro de 2013 às 16:16
E está tudo dito. Se discordo de alguma coisa é do comentário à duração. Nem dei pelo tempo passar. E depois há que ver que sendo Sergio Leone um dos homenageados, não se podia pensar num filme curto. :)

De resto é como dizes, interpretações todas elas notáveis; uma história que traz uma nova abordagem num tema pouco comum nos westerns; as siceras e bem vindas homenagens; e sempre aquele toque Tarantino.

Tudo a fazer deste filme um futuro clássico.


De Gustavo a 9 de Fevereiro de 2013 às 14:53
Concordo é a obra prima de Tarantino, talvez melhor que Pulp Fiction se não fosse ter ganho notoridade


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