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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Difícil de encontrar boa criadagem nestes dias.

Hugo Gomes, 29.12.25

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Nada disto é inesperado: se é bestseller, automaticamente é adaptável. Está tudo no contrato, como diz o outro. Esta literatura moderna e comercial, muita dela light, composta por thrillers ou romances de cabeceira, nasce já pensada na sua conversão imagética. A escrita rápida e asséptica não se deixa ceder a floreados, ao lirismo ou a qualquer forma de desconstrução; é a intriga o que importa. Guiões disfarçados, a solicitar clemência no grande ecrã ou, mudados os tempos, talvez o streaming mais próximo.

Foi assim, enquanto leitor, que guardei memória das transcrições sem espinhas dos suspenses de Dan Brown: ler como se estivesse a ver um filme, indolor e adequado a quotidianos apertados, constantemente a suplicar e a competir pela nossa atenção. Acreditei, por momentos, que o fenómeno de “A Criada”, de Freida McFadden, encontraria boas mãos em Paul Feig. O enredo, com todas as suas reviravoltas e bestialidades, resume-se à relação conflituosa entre duas mulheres. Pensaríamos, assim por alto, em A Simple Favor: uma persona com toques de “Les Diaboliques”, cocktail na mão e vestidos em tons pastel, Blake Lively e Anna Kendrick como protagonistas desse thriller, hoje encostado ao mais interessante da filmografia de Feig (irregular e feito de “péssimas escolhas”). Talvez aqui se consiga espremer algo de satírico do romance ["A Criada”], e a peça não poderia ser mais aguardada.

Obra de série B, com twists afiambrados por uma actriz a lutar por carisma, Sydney Sweeney aponta aqui o seu êxito, faz peito e regateia … enfim, perde em contraste com Amanda Seyfried: louca, desvairada, psicopata de encomenda, mas dona daquele toque over-the-top e preciso (ela diverte-se, não há dúvida!). “The Housemaid”, enquanto filme, não aquece, nem arrefece, e longe de lustrar. É thriller passageiro, sem grandes contorcionismos: violência pontuada aqui, nudez acolá, um pisa-papéis na direcção de um cinema agressivo (só que não), misto de expressividades e um pouco pingado de romantismo piroso (o filme, porém, apercebe disso a tempo, faz ironia com tanto mel envolvido). Paul Feig, está em modo de agrado a gregos e troianos, anseia criar um produto esquizofrénico, capaz de satisfazer fãs e, ao mesmo tempo, acomodar os novos visitantes deste universo, mas sabe a pouco, o seu olhar é longe do arquitectónico que o argumento solicitaria (visto que aquela casa toma-se como peça central), ou de outros amassos se fosse Hitchcock (não é comparação desleal, o cineasta fazia obras-primas do suspense com literatura de aeroporto, é antes uma lição a ser aprendida talvez). Mas nem um nem outro, Feig esteve desinspirado aqui, automatizado sim, para não magoar expectativas de quem quer que seja. 

No fim, promete-se sequências. Talvez Sweeney consiga, por mim, o seu franchise! Esperemos elencos mais felizes a acompanhar em próximas paragens (não, Amanda, não foi indirecta para ti: estiveste bem na tua forma lunática, e tu bem o sabes!).