Difícil de encontrar boa criadagem nestes dias.

Nada disto é inesperado: se é bestseller, automaticamente é adaptável. Está tudo no contrato, como diz o outro. Esta literatura moderna e comercial, muita dela light, composta por thrillers ou romances de cabeceira, nasce já pensada na sua conversão imagética. A escrita rápida e asséptica não se deixa ceder a floreados, ao lirismo ou a qualquer forma de desconstrução; é a intriga o que importa. Guiões disfarçados, a solicitar clemência no grande ecrã ou, mudados os tempos, talvez o streaming mais próximo.
Foi assim, enquanto leitor, que guardei memória das transcrições sem espinhas dos suspenses de Dan Brown: ler como se estivesse a ver um filme, indolor e adequado a quotidianos apertados, constantemente a suplicar e a competir pela nossa atenção. Acreditei, por momentos, que o fenómeno de “A Criada”, de Freida McFadden, encontraria boas mãos em Paul Feig. O enredo, com todas as suas reviravoltas e bestialidades, resume-se à relação conflituosa entre duas mulheres. Pensaríamos, assim por alto, em “A Simple Favor”: uma persona com toques de “Les Diaboliques”, cocktail na mão e vestidos em tons pastel, Blake Lively e Anna Kendrick como protagonistas desse thriller, hoje encostado ao mais interessante da filmografia de Feig (irregular e feito de “péssimas escolhas”). Talvez aqui se consiga espremer algo de satírico do romance ["A Criada”], e a peça não poderia ser mais aguardada.
Obra de série B, com twists afiambrados por uma actriz a lutar por carisma, Sydney Sweeney aponta aqui o seu êxito, faz peito e regateia … enfim, perde em contraste com Amanda Seyfried: louca, desvairada, psicopata de encomenda, mas dona daquele toque over-the-top e preciso (ela diverte-se, não há dúvida!). “The Housemaid”, enquanto filme, não aquece, nem arrefece, e longe de lustrar. É thriller passageiro, sem grandes contorcionismos: violência pontuada aqui, nudez acolá, um pisa-papéis na direcção de um cinema agressivo (só que não), misto de expressividades e um pouco pingado de romantismo piroso (o filme, porém, apercebe disso a tempo, faz ironia com tanto mel envolvido). Paul Feig, está em modo de agrado a gregos e troianos, anseia criar um produto esquizofrénico, capaz de satisfazer fãs e, ao mesmo tempo, acomodar os novos visitantes deste universo, mas sabe a pouco, o seu olhar é longe do arquitectónico que o argumento solicitaria (visto que aquela casa toma-se como peça central), ou de outros amassos se fosse Hitchcock (não é comparação desleal, o cineasta fazia obras-primas do suspense com literatura de aeroporto, é antes uma lição a ser aprendida talvez). Mas nem um nem outro, Feig esteve desinspirado aqui, automatizado sim, para não magoar expectativas de quem quer que seja.
No fim, promete-se sequências. Talvez Sweeney consiga, por mim, o seu franchise! Esperemos elencos mais felizes a acompanhar em próximas paragens (não, Amanda, não foi indirecta para ti: estiveste bem na tua forma lunática, e tu bem o sabes!).