Uma proposta recusável!
O novo trabalho de realização dos irmãos Dardenne (Jean-Pierre e Luc) coloca o espectador constantemente na pele das suas personagens, diria antes, figuras representativas de uma sociedade onde os números valem mais que a própria vida humana. Deux jours, une Nuit (Dois Dias, Uma Noite) é uma proposta por vezes caricata de reflexão ética propicia ao debate, que nos obriga a olhar ao nosso redor, à situação actual em que vivemos, quer a nível político-social e mesmo económico.
No seio deste retrato prolongado de "mendiguice" levado a cabo pela actriz Marion Cottilard, cuja personagem, Sandra, tenta persuadir todos os seus colegas de trabalho (pelo menos a maioria) a prescindir do bónus anual para que esta mantenha o seu posto de trabalho, tudo isto durante um fim-de-semana. Esta jornada de humilhação pessoal é repleta de situações que indiciam críticas por parte dos Dardenne a um sistema frio e que nada faz para impedir o gradual desemprego. É o efeito dominó que passa ao lado da fita, mas que ao mesmo tempo é mencionado constantemente sob gestos e palavras das suas respectivas personagens.
A proposta é digna no seu objectivo, mas cedo Deux jours, une Nuit força os seus subenredos em prol de um cenário em pré-construção, tecendo simultaneamente os seus alvos críticos e estampando-os em tudo o que encontra. O final ainda nos reserva certas surpresas que evidenciam outros alvos, mas tudo cai no politicamente correcto incendiário, que propicia a discussão e a auto-reflexão. Enquanto isso, Cottilard é subtil na sua entrega trágica, funcionando como um mártir perfeito na sua peregrinação em busca dos valores e do sacrifício humano.
Em Deux jours, une Nuit, a dupla Dardenne cria aqui um tipo de cinema reflexivo sob um pretexto algo naturalista, socialmente copista e quase pedagógico. É como se tudo resumisse a um prolongamento de Resources Humaines (Recursos Humanos), de Laurent Cantent.
Filme visualizado no Lisbon & Estoril Film Festival 2014
Real.: Jean-Pierre e Luc Dardenne /Int.: Marion Cotillard, Fabrizio Rongione, Pili Groyne
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