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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Da rosa pintada eu me confesso ...

Hugo Gomes, 14.05.24

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Caminhar sem olhar para trás.

Literalmente ou metaforicamente? 

Ou as duas?”

Será Cláudia Rita Oliveira uma caçadora de emoções? Dos seus filmes parece extrair um elixir revitalizador, sugando, como um vampiro, a intimidade dos seus objetos fílmicos, no caso do seu anterior “Cruzeiro Seixas - As Cartas do Rei Artur” (2017), o qual “desenha” uma linha reta em direção a Mário Cesariny, provoca no artista plástico Artur Cruzeiro Seixas uma exposição à sua pessoa, sentimentalismo induzido para preencher os alicerces do seu documentário, ora com pinceladas de biográfico, ora com esquadria intimista. Fê-lo como uma última homenagem, ultrapassando o efeito académico e esquemático-pedagógico, proporcionando uma faceta oculta desvendada, por fim, à luz natural.

Em “No Canto Rosa”, o objeto fílmico é mais pertinente e, em teoria, mais fácil de se aproximar. Trata-se da mãe da realizadora, um retrato que se centra no seio familiar, sendo que a sua história se entrelaça, em muitas ocasiões, com as vivências pessoais de Cláudia Rita Oliveira. Porém, é aqui que termina o dito facilitismo, pois a sua progenitora, Francisca Rita, é vítima de violência doméstica e psicológica por parte de um companheiro, um tremendo psicopata. O filme faz desse relato a sua confissão, um utensílio judicial e, igualmente, um exercício de sensibilização. Esse confessionário resume-se a um canto rosa, tal como indica o título, um espaço de cores festivas segundo as sensibilidades ópticas automáticas, uma parede testemunha de medos, revoltas e ressentimentos com intenções de "braquear" (ou "rosear", gostaria de transformá-la num praticável verbo) a narrativa ali pronta a ser debitada. Mas é com força da realizador, atribuindo a "tocha de resistência" à sua locutora, que desfaz essa censura rosada inicialmente sugerida.

O restante, filmagem após filmagem, usa a relação mãe-filha para “invadir” o seu espaço, fazendo desse isolamento, seja forçado, seja voluntário, uma arma de arremesso para eventuais tons panfletários que Cláudia Rita Oliveira acidentalmente comete ao pegar no seu exemplo próximo e estampá-lo como uma exemplificação de uma sociedade patriarcal protecionista. No entanto, o caso demonstrado não é mais do que profunda incompetência e amadorismo do nosso sistema judicial para com casos como estes (sem com isto relativizar ou minimizar a seriedade do problema).

Fora isso, a verdadeira coluna vertebral deste “No Canto Rosa” é o facto de ser uma “história” centrada na vítima e nunca no agressor, cuja identidade, enfiada em abstratos de gaveta, é uma mera alusão, nada mais. A sobrevivência, a história digna de ser narrada, fica como testemunho sem papas na língua.