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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Corpos em falência ...

Hugo Gomes, 29.10.25

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Havia em “Titane" algo que transcendia o choque e o desconforto, algo que escapava à espuma da polémica gerada pela Palma de Ouro numa Cannes em ressaca pandémica. O filme de Julia Ducournau era, sobretudo, um manifesto contra a sobreliteralidade (esse mal moderno que insiste em explicar o inexplicável), erguendo-se antes sobre a carne e o metálico, sobre o corpo enquanto linguagem. E nada melhor como espelho ver Vincent Lindon desmontando a sua robustez de homem-ferro, enquanto Agathe Rousselle, androginamente mutável, expunha o corpo como território de metamorfose. Tudo endrominado por favores ao cinema de Cronenberg e de Tsukamoto, e igualmente filtrados por uma nova sensibilidade, quase matemática, que convertia o grotesco em poesia biomecânica.

Chegamos agora a “Alpha”, e a promessa parece ter-se dissolvido. Ducournau regressa ao corpo, mas perde o pulso: filma espaços claustrofóbicos, mergulhados num azul metálico anestesiante. Deixa o seu perfeccionismo fora, de câmara em punho, decompõe o cenário e logicamente o tempo aí manifestado. A metáfora — o HIV enquanto cicatriz do século — surge insistente, reiterada até se esvaziar, tudo aqui é sintoma e sinal, nada respira. Falta-lhe a tensão entre o humano e o monstruoso, sobra a histeria visual de ocasião, ou banda-sonora, na onda da epifania, que ainda nos remete aos sabores titânicos.

Contudo, é engodo nesta história de mulheres e de relações em processo de restauro, de mãe e filha e pelo meio um fantasma, a evocação do seu jeito de alegoria de género. Resta-lhe o body horror, agora perfumado e domesticado, para colocar-nos no território do fantástico, assim o pretendemos. Por fim, a chegada da catarse, e quando acontece é tardia, não dói nem um pouco. “Alpha” pretende ser elegia, mas é apenas eco: um filme que se quer carne e acaba prótese. 

Julia Ducournau, de visionária a vítima do seu próprio artifício, assina uma das desilusões discretas do ano. Esperemos que não se concretize a máxima do “ao terceiro filme é revelado o tipo de realizador que encontramos”, seria das mais grandes decepções depois da minha agressiva defesa de “Titane” na conquista daquele Prémio que muitos cuspiram com convicção e ideologia.