Corpos em falência ...

Havia em “Titane" algo que transcendia o choque e o desconforto, algo que escapava à espuma da polémica gerada pela Palma de Ouro numa Cannes em ressaca pandémica. O filme de Julia Ducournau era, sobretudo, um manifesto contra a sobreliteralidade (esse mal moderno que insiste em explicar o inexplicável), erguendo-se antes sobre a carne e o metálico, sobre o corpo enquanto linguagem. E nada melhor como espelho ver Vincent Lindon desmontando a sua robustez de homem-ferro, enquanto Agathe Rousselle, androginamente mutável, expunha o corpo como território de metamorfose. Tudo endrominado por favores ao cinema de Cronenberg e de Tsukamoto, e igualmente filtrados por uma nova sensibilidade, quase matemática, que convertia o grotesco em poesia biomecânica.
Chegamos agora a “Alpha”, e a promessa parece ter-se dissolvido. Ducournau regressa ao corpo, mas perde o pulso: filma espaços claustrofóbicos, mergulhados num azul metálico anestesiante. Deixa o seu perfeccionismo fora, de câmara em punho, decompõe o cenário e logicamente o tempo aí manifestado. A metáfora — o HIV enquanto cicatriz do século — surge insistente, reiterada até se esvaziar, tudo aqui é sintoma e sinal, nada respira. Falta-lhe a tensão entre o humano e o monstruoso, sobra a histeria visual de ocasião, ou banda-sonora, na onda da epifania, que ainda nos remete aos sabores titânicos.
Contudo, é engodo nesta história de mulheres e de relações em processo de restauro, de mãe e filha e pelo meio um fantasma, a evocação do seu jeito de alegoria de género. Resta-lhe o body horror, agora perfumado e domesticado, para colocar-nos no território do fantástico, assim o pretendemos. Por fim, a chegada da catarse, e quando acontece é tardia, não dói nem um pouco. “Alpha” pretende ser elegia, mas é apenas eco: um filme que se quer carne e acaba prótese.
Julia Ducournau, de visionária a vítima do seu próprio artifício, assina uma das desilusões discretas do ano. Esperemos que não se concretize a máxima do “ao terceiro filme é revelado o tipo de realizador que encontramos”, seria das mais grandes decepções depois da minha agressiva defesa de “Titane” na conquista daquele Prémio que muitos cuspiram com convicção e ideologia.