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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Come-me enquanto chamas pelo meu Nome

Hugo Gomes, 30.11.22

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Depois de abandonar o naturalismo em romances joviais e calorosamente hormonais que fora “Call me By Your Name”, o italiano Luca Guadagnino atingiu a popularidade mundial e aventurou-se em criar um legado seu, ou diria antes, recriar um legado. Depois de revisões em clássicos como “A Bigger Splash” e “Suspiria”, uma tentativa na televisão com “We Are Who We Are”, Luca espreita as páginas do romance de Camille DeAngelis, e oferece-nos “Bones and All”, filme de aspirações às odes de duplas homicidas em lençóis amorosos [“Bonnie and Clyde”, “Badlands”, “Natural Born Killers”] que, infelizmente (e não só), adquire um tom programático digno das inúmeras adaptações da literatura YA [Young Adult]. Só que ao invés de vampiros e o proibido ato de “morder pescoços”, temos um “Twilight” com canibais, aqui convertidos em anomalias humanas com o seu direito de vida e ao seu "exquisite" apetite. 

Taylor Russell (“Waves”, de Trey Edward Shults) é Maren, essa jovem-padrão que acidentalmente é inserida neste universo sedento de carne humana. Desde sempre sentiu impulso em alimentar-se da tão proibida “iguaria”, o que motivou o misterioso desaparecimento da sua mãe e mais tarde, o abandono por parte do seu pai. Assim, prosseguindo no interior americano em busca das suas raízes, mais concretamente na entidade maternal ausente, encontra nesse seu caminho um Timothée Chalamet igual a si e um Mark Rylance que verbaliza as leis não-assinadas deste “mundo de marginalizados”, descobrindo que a sua condição já se encontra batizada - “Comedores” - e que existe um nirvana a ser alcançada (“There's before bones and all, and then there's after.”). No fundo, como a maior parte dos coming-to-ages, é a catarse identitária, o destino desta road-trip desvairada, mas conectada a lugares-comuns [como sempre]. 

No papel, “Bones and All” soa-nos indigesto, e é no ecrã, cuja incompatibilidade de teores persiste. Imaginem colocar açúcar e sal no mesmo copo, enchendo-o de água e bebendo-o de seguida - obviamente que a tendência instintiva será de cuspir tal mistela, repudia-la perante os choques desencadeados por esses dois sabores - nesse aspeto, Luca revela-se incapacitado em criar uma aproximação para com estas personagens e para com este mundo, o canibalismo desculpável em vestes de romance teenager, e por sua vez um filme com uma limitação inteletual direccionada a adolescentes e pueris, numa temática que encanta adeptos do gore e do macabro, levando-nos a uma ingenuidade quase plástica. Filhos de uma carne sintética, sem crenças na sua própria “monstruosidade”.  

É um filme em constante finta, ora sentimos-nos enojados pelas “tripas de fora”, ora sentimos “encantados” e motivados com a maldição dos mesmos. A juntar a esta viagem de freaks evidenciamos a sua maior “fragilidade”, a grandiloquência de Luca, mais uma vez, exibindo um desejo mórbido em tecer o efeito-choque do que representá-lo em grande ecrã, fruto disso é uma montagem algo tosca (o "point-of-view" sob camadas de Maren após a saída do supermercado deixam-nos em aflição quanto a sua amadora decoupagem) ou até redundante (a intercalação no clímax é exemplo disso), para depois seguirmos para “pseudo-maliquices”, inspirações a “Badlands” no que requer à observação de uma América indomável e selvagem. Selvajaria poderia ser somente estas personagens, mas mais selvagem ainda é a ideia de trazer uma história destas, embrulhada em clima meloso, açucarado, mas contaminado com gotas avinagradas. 

Encontramos aqui o imperfeito filme de Natal? Aliás, prevejo que temos o filme “ideal” para arruinar uma Seia. A Última talvez quanto a este involuntariamente ridículo pesadelo.

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