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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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"Chestnut": o impasse, e depois a maturação da castanha

Hugo Gomes, 21.06.24

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Tentando evadir os holofotes que lhe foram apontados com o sucesso da série “The Stranger Things”, na plataforma Netflix, a atriz Natalia Dyer tem escolhido uma alternativa no que requer presença na grande tela, conseguindo nestes últimos anos representar-se como faceta indie norte-americana, com considerações à sua figura enquanto descoberta sexual (com exceção do terror “All Fun and Games”, em 2023). Assim foi em “Yes, God, Yes”, abordando os benefícios da masturbação em ambientes religiosamente sufocantes, e agora numa espécie de "coming up" com toque LGBT, conectando-se com a identificável maturação.

Este filme - “Chestnut”, primeira longa-metragem de Jan Cron - usufrui do elemento queer para nos trazer a historieta universalista de uma jovem norte-americana pós-graduação, aspirante a escritora, que, na fuga a bares, se depara com um trio de personas automaticamente a integram no seu grupo, este, regido por clubes de poesia, litros de álcool e disputas sobre a qualidade musical das bandas que entram em diegese com a narrativa (composto por Ruby Haunt, Bullion, Kinship, entre outros). No centro desta folia está Tyler (Rachel Keller), uma jovem inconstante e, por vezes problemática, que será o seu interesse amoroso, com efeitos previsivelmente autodestrutivos.

Romance lésbico, será a fácil etiqueta para enfiar “Chestnut” [tradução para castanhas, o fruto] na que se acredita ser a sua “gaveta”, só que contrariamente a sua concepção está longe das estéticas ditamente, e ditatorialmente, queers - que vingaram no cinema, ora diversas vezes associados ao marginal e hoje trespassadas, cada vez mais, para o mainstream - e por sua vez mais próxima da fórmula indie-americana que qualquer Sundance desta vida ostenta como montra de promoção. Não é de todo um exemplar transcendental e interessante na sua teoria e igualmente prática, contudo, é Natalia Dyer que consegue carregar o filme para encostados, sem nunca, e daí o importante nestes exemplares, trair a empatia criada com o espectador.

No fundo, “Chestnut” é um filme de superação, crescimento e dores provenientes de "corações partidos" que nos servem como "abre-olhos para o futuro". O elemento lésbico é uma normalização e universalidade que nos faz desejar resgatar o filme das tais categorizações "queer" (e todo o marketing que isso tem acarretado) que tentam associá-lo, exceto um discurso enfiado às três pancadas sobre géneros e trans no calor do after. Mas perdoamos isso, visto que não é invocado mais nenhum panfletarismo aqui, apenas pessoas a viver as suas vidas, malditas e com manias de leccionar-nos … o que fazer, se a vida é mesmo feita desses encontros e desencontros?