Data
Título
Take
24.5.15

3181850-jpg_2846485.jpg

Falta pouco para conhecermos o vencedor do prémio máximo do Festival de Cannes, a tão cobiçada Palma de Ouro. Será Carol de Todd Haynes [ler crítica]? Mountains May Depart de Jia Zhang-Ke [ler crítica]? The Assassin, de Hou Hsiao-Hsien [ler crítica]? Por enquanto o nosso preferido para a Palma não é nenhum dos referidos, mas sim o drama ambientado na Segunda Guerra Mundial, Saul Fia (Son of Saul [ler crítica]).

 

Dirigido pelo estreante Lászlo Nemes, Saul Fia revela-nos um outro olhar ao Holocausto, onde num campo de concentração, um grupo de judeus é obrigado a efectuar trabalhos "sujos" ao serviços dos Nazis. No seio disto encontramos Saul (Géza Röhrig), que tal como os seus "colegas" pretende sobreviver o máximo de tempo possível. Porém, um acontecimento vai marcá-lo para sempre, determinando-o a arriscar a sua própria vida pelo que julga ser o mais correcto a fazer.

 

Com base nesta aposta, o Cinematograficamente Falando … elaborou as sete razões pelo qual Saul Fia merece o prémio nesta 68ª edição do Festival de Cannes.

 

 

 

01) Holocausto sem clichés

 

Nos dias de hoje é difícil concretizar uma produção sobre o Holocausto que consiga fugir dos lugares-comuns da temática. A verdade é que também não existe muito por onde fugir e a liberdade criativa é frequentemente mal vista neste tipo de filmes, tudo porque o seu lado verídico parece sustentar-se em "território sagrado". Tal também acontece com exercícios de maniqueísmo. Saul Fia é talvez dos poucos filme decorridos nesse período negro que tem a proeza de contornar grande parte dessas "minas". Quem esperará pelos clichés habituais, pode sair desapontado.

 

 

02) Os horrores são do passado, mas os ecos prevalecem

 

Saul Fia tem a proeza de expor as bestialidades cometidas na Segunda Guerra Mundial de um jeito aquém do gratuito. Aliás, o seu ponto forte é o constante recurso ao efeito sugestão (o som é uma das formas). É que o espectador tem a consciência de que os horrores decorrem na sala ao lado e que a qualquer momento tais poderão atingir o protagonista. A carga psicológica e a atmosfera tenebrosa que paira em todo este filme não seriam possíveis se László Nemes optasse em demonstrar o inevitável. Ao invés disso é uma câmara "míope" que nos acompanha nesta jornada às profundezas do Inferno.

 

saul_fia_uj_fekvo_lead.jpeg

 

03) Finca-se no realismo

 

O realismo fincado e tecnicamente possível de Saul Fia leva-nos ao encontro da face mais negra do ser humano. Não existe qualquer teor hollywoodesco nem sequer a manipulação auferida pela banda sonora pomposa, ou qualquer tipo de melodia. A câmara de Lászlo Nemes não desafia essa realidade, limita o olhar do espectador, mas nunca a sua imaginação.

 

 

04) Não esquece que acima de tudo somos  humanos

 

Até quando tudo parece estar perdido e o homem transforma-se numa simples máquina, Saul Fia revela-nos que mesmo nos piores cenários e sem qualquer fio de esperança é possível praticar qualquer gesto de compaixão, mesmo com um desconhecido. Afinal é isso que nos tornam seres humanos.

 

20150416saul-fia-cannes-2015.jpg

 

05) É uma primeira obra

 

Esta razão pode também ser o maior "inimigo" de Lászlo Nemes, visto esta ser a sua estreia nas longas-metragens e um galardão tão cedo poderá desmotivar o desenvolvimento criativo do realizador. Contudo, um festival que normalmente nos últimos anos premeia obras de realizadores de renome, um primeiro filme laureado com a Palma seria uma lufada de ar fresco, motivando novos nomes a surgirem na Competição Oficial em futuras edições.

 

 

06) A sua narrativa é emocionalmente desconcertante

 

Uma câmara que se "cola" ao protagonista, mas que gradualmente se emancipa deste, e uma narrativa composta por inúmeros planos de sequência salientam a força das personagens não como seres individuais, mas como uma massa colectiva. Nisto aumenta-se um climax calculado e perturbador no decorrer dos actos. Para além do mais, é este tipo de narrativa que torna a encenação tão credível.

 

Saul_fia_Son_of_Saul-433275404-large.jpg

 

07) A Banalidade do Mal" de Hannah Arendt

 

Já que falamos na humanidade de Saul Fia, vale a pena salientar a sua ambiguidade. Tal como a filosofa alemã  referiu na sua "A Banalidade do Mal", quando o vazio das mentes tornam estas aptas para gestos de violência. Um dos exemplos de que o maniqueísmo não é o forte desta estreia de Lászlo Nemes, e ainda bem!

 

 

 

Ver Também

Filme islandês sobre rebanhos vence Un Certain Regard!

Paulina, de Santiago Mitre, vence Semana da Crítica!

Bem recebido o documentário que encerra o 68º Festival de Cannes!

The Little Prince recebido emocionalmente em Cannes!

Cannes: Youth divide a crítica!

Cannes: Taklub, de Brillant Mendoza, apresentado hoje em Cannes!

Cannes: O Realizador Dalibor Matanić prepara trilogia sobre Amor e Ódio!

Cannes: Mil e uma Noites de Miguel Gomes bem recebido!

The Sea of Trees "vaiado" em Cannes!

Agnés Varda homenageada no Festival de Cannes!

Cannes: A "invasão" lusitana!

Cannes: Youth, de Paolo Sorrentino, revelou mais um trailer!

Júri completo do Un Certain Regard, de Cannes, revelado!

Love, de Gaspar Noé, história de paixões passadas (primeira imagem)!

Cannes: Brillante Mendoza aborda a sobrevivência em trailer de Taklub!

Sabine Azéma preside júri da Caméra d’Or em Cannes!

Documentário sobre o Aquecimento Global encerra Festival de Cannes

Primeiro trailer de La Tête Haute, o filme de abertura do 68º Festival de Cannes!

Cannes revela novos filmes na programação, Love de Gaspar Noé está incluído!

Revelado júri completo do Festival de Cannes!

Semana da Crítica em Cannes abre com filme de Adèle Exarchopoulos e Tahar Rahim!

Mil e Uma Noites, de Miguel Gomes, presente na Quinzena de Realizadores

Confiram (quase) toda a programação da 68ª edição do Festival de Cannes!

Vejam a Selecção de Curtas-Metragens do 68º Festival de Cannes!

Filme de Philippe Garrell abre Quinzena de Realizadores de Cannes!

Cannes: Passados 28 anos, filme realizado por mulher abre Festival!

Isabella Rossellini é presidente do júri de Un Certain Regard!

Cannes: Women in Motion, a perspectiva da Mulher numa nova secção!

Mad Max: Fury Road será exibido no Festival de Cannes!

Ingrid Bergman em destaque no poster da 68ª edição do Festival de Cannes

Jia Zhangke vai ser premiado na Quinzena de Realizadores de Cannes!

Os Coens vão presidir o júri do próximo Festival de Cannes!

 

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.


publicado por Hugo Gomes às 15:59
link do post | comentar | partilhar

sobre mim
pesquisar
 
arquivos
2019:

 J F M A M J J A S O N D


2018:

 J F M A M J J A S O N D


2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


recentemente

Don't Call me Angel

Sempre iluminado!

«Vitalina Varela»: a noit...

Terminator: Dark Fate - o...

No Country for Old Women

«Il Traditore»: a máfia m...

Porquê ver Mutant Blast? ...

Quote #12: Ventura (Vital...

Feios, Porcos e Maus: epi...

Na Netflix, nem tudo é or...

últ. comentários
escadas moduladas
receita de chicha morada peruana
Chamar uma desentupidora!
Takes
10/10 - Magnífico
9/10 - Imprescindível
8/10 - Bom
7/10 - Interessante
6/10 - Razoável
5/10 - Medíocre
4/10 - Muito Fraco
3/10 - Mau
2/10 - Péssimo
1/10 - De Fugir
0/10 - Nulidade
stats counter
HTML Hit Counter
counter
links
mais comentados
31 comentários
25 comentários
20 comentários
12511335_1084470088250815_732384524_o
subscrever feeds
SAPO Blogs