Terça-feira, 23 de Maio de 2017

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Bomba?!! Ainda nem havíamos começado a ver Le Redoutable, o tão esperado biopic do sempre avant-garde Jean-Luc Godard, quando o Theatre DeBussy foi evacuado. A segurança, de forma a acalmar os ânimos e a atenuar o pânico que se poderia instalar, referiu que se tratava de um exercício, mas outras fontes sugeriam uma ameaça de bomba o que, tendo em conta que estamos viver num Festival com uma segurança mais apertada, acaba por se reflectir nos atrasos das projecções, nas demoras, nas filas intermináveis e nos processo de segurança que se alteram, dia após dia.

 

Mas tudo não passou disso mesmo, uma ameaça, e assim com algum receio seguimos para a apresentação de Le Redoutable, a visão de Michel Hazanavicius ao cineasta incontornável. Como é anunciado durante esta história, Godard praticamente inventou o cinema. Por palavras mais honestas, reinventou aquilo que víamos no cinema, experimentou o som, a imagem, as ideias, e por fim, emanou a política de forma a abraçar esta arte, tal como fizera, anos antes, Serguei Eisenstein. Le Redoutable remete-nos a uma fase crucial do realizador, o término das rodagens de La Chinoise, a sua relação perturbada com a actriz Anne Wiazemsky, e a sua inclinação para um activismo político que alterou para sempre a sua visão de fazer Cinema. Hazanavicius é um homem de máscaras e, tal como demonstrara com O Artista, um realizador ligado ao passado, convicto em mimetizá-lo. Em certa parte, Le Redoutable é um La La Land sobre a filmografia de Godard. É fácil gostar da obra, as referências, as piadas visuais, sonoras e os maneirismos dos actores facilitam essa nossa ida à memória cinéfila.

 

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Mas Le Redoutable é ainda um filme de uma falsa confiança, que por vezes dá um braço ao público de forma a auto-humilhar-se e cair no registo de sinceridade. Infelizmente, não existe tal feito, o Godard de Louis Garrel é um clown digno de slapstick, e o humor passa de godardiano até ao estilo inimitável dos Monty Python. Por um lado há que admitir, que mesmo não indo longe, Hazanavicius consegue um filme pelo qual pode despertar um interesse súbito em conhecer o homem que homenageia, fazendo melhor papel que O Artista.

 

Entretanto, já que falámos de memória cinéfila, porque não falar de Jeannette: L’Enfance de Jeanne D’Arc, um musical de Bruno Dumont, que é tudo menos um exemplar do género? O público foi saindo (e não foram poucos) quando se apercebeu da blasfémia da produção num musical deselegante, com uma melodia arrojada e atípica, assim como os não-actores que, de certa forma, tentam cantar ou dançar sem qualquer formalidade onírica. O musical recebeu o seu atentado terrorista, mas felizmente era o tipo de ataque que esperávamos, uma desconstrução do género, uma heresia religiosa e histórica de fazer corar os enganados. Reconheço que este poderá ser o melhor das obras de Dumont, um mais absurdista e igualmente arrojado. A sessão fez-se com imensas casualidades, foi aplaudida de tamanha euforia. As palmas eram, obviamente, direccionadas a Bruno Dumont que se encontrava na sala. Temos um Godard dos tempos antigos, um homem que conhece o cinema, mas que está pronto a desafiá-lo. Viva a delinquência cinematográfica!

 

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Recebido de forma diferente foi The Killing of a Sacred Deer, de Yorgos Lanthimos. Uma aspiração ao género de horror, onde o tom mecanizado e frio foi-se perdendo gradualmente na narrativa, para dar origem à mais dolorosa das decisões chaves. As vaias ouviram-se, provavelmente das aproximações desse género, visto que Cannes não suporta abordagens diferentes do chamado world cinema. Ou, por outro lado, o final pesaroso e indigesto tenha de certa forma abalado as morais e éticas da imprensa mais politicamente correcta. É a violência sem um ponto de partida, e a vingança sob uma perspectiva mirabolante, e o correctíssimo técnico a ser atacado por um espírito em plena convulsão. Com Colin Farrell e uma trágica Nicole Kidman (grande aposta aos prémios de interpretação feminina), The Killing of the Sacred Deer será um dos grandes filmes das próximas temporadas.

 

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publicado por Hugo Gomes às 21:35
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